Nunca entendi muito bem porque,
mesmo depois de muito tempo morando fora de casa, uma pessoa consegue derramar
lágrimas na hora da despedida. Depois de 3 meses morando longe (acho que nem
isso tudo), e já tendo voltado 2 vezes pra cidade alencarina, consigo entender
e sentir exatamente o efeito da tristeza, traduzido por uma enxurrada de lágrimas.
Como sou exagerada e sentimental, a uma semana da partida, fico com um banzo
terrível e as velhas e companheiras lagrimas não param de chegar.
Durante a fase de banzo, além da
tristeza profunda, existe outra questão extremamente tensa e sentimental:
arrumar a mala. Essa modalidade requer prática e paciência, habilidades que
ainda não possuo. Antes da arrumação, sempre separo todas as roupas e todos os
objetos extremamente necessários que devem adentrar aquele espaço reduzido. Método
nada saudável, pois toda vez que minha querida mãe entra no quarto, ela se
apavora com a bagunça, e, logicamente, inicia-se uma confusão. “menina, arruma
logo essa mala. Aproveita e arruma teu quarto, que é uma eterna bagunça”. As vezes,
pra me deixar mais nervosa, ela completa: “não vai caber não, acho melhor você
levar uma outra sacola”. Detesto sacolas. Viajar entupida de sacolas é sinônimo
de retirante. Me imagino em várias situações durante o longo trajeto Curitiba-Fortaleza.
Se as sacolas caírem no chão e eu não tiver como pegá-las? Ou se o vôo atrasar
e eu tiver que sair correndo com aquele monte de sacolas? E a ida ao banheiro?
nem se fala! Odeio viajar carregada. O ideal pra mim seria uma mala que
coubesse tudo. Ficando de fora apenas o que será carregado na bolsa pessoal. Enfim.
No sonho de viajar sem sacolas, as minhas roupas separadas vão ficando por ali.
Durante uns 3 dias. Uma semana. E até mais. Como se num passe de mágicas, tudo
se resolvesse.
Na véspera do fatídico momento, tomo coragem e parto para a mala. Tudo começa tão organizado, que chego a ter
certeza que daquela vez vai caber. Na metade percebo que mais uma vez não
conseguirei. E quando ainda restam mais 23kg, fora os que já estão amontoados dentro da mala, tenho a consciência de que meu pensamento inicial foi mero engano. No minuto final
precisamos pesar, literalmente e sentimentalmente, aquilo que é mais importante.
Fui tirando aos poucos o que eu não iria precisar para o frio curitibano: uma
bota de salto alto, dois cachecóis de lã, um casaco de couro, dois nichos para
o meu novo quarto, 3 livros, uma xilogravura com a temática do tambor de
crioula, minha calculadora e um pacote de Vitamilho. Acabei elegendo o que
realmente importava: 2kg de goma fresca, meu agbê e meu travesseiro. Apesar de
ter aversão a sacolas, viajei carregada mais uma vez. Mas feliz. Por ter
certeza de que a saudade diminuiria a cada manhã, na hora do mergulho da minha
tapioca no café com leite.
.escrito por Virgínia.
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