ponte metálica. fortaleza. ceará.
Não sei se porque meu avô foi professor de geografia, mas eu
lembro de ter um mapa do brasil, colado na parede do meu quarto, durante a
vida escolar. Lembro que olhava muito pra ele. E, por algum motivo, acabei
decorando todos os estados e capitais do país continental. Mesmo aqueles mais distantes e
impossíveis.
Claro que para todo “decoreba” existem regras. Regras feitas pela nossa cabeça. Que nunca querem dizer nada. Mas que conseguimos o objetivo: decorar.
Claro que para todo “decoreba” existem regras. Regras feitas pela nossa cabeça. Que nunca querem dizer nada. Mas que conseguimos o objetivo: decorar.
Assim foi para distinguir Rondônia de Roraima. Roraima. Lá
em cima. Só poderia ter uma Boa Vista. E Rondônia, coitada! Escondida lá
embaixo. Tinha que ser estranha e ter um Porto Velho. Mato Grosso Cuiabá me
pareciam sonoros. Assim como Tocantins Palmas.
Para o nordeste acho que tinha uma musiquinha com o nome de
todos os estados e capitais. Além de ser uma obrigação.
Descendo um pouquinho, tinha o famoso sudeste. O mais fácil
de decorar. Dois estados com capital de mesmo nome. E um lugar de nome Espírito
Santo, só podia ser uma Vitória.
Florianópolis era fácil! Além de São Luis, era a outra
capital ilha. E apesar de Curitiba ser a cidade invisível, eu sempre
soube que o Paraná existia. Meu pai passou longos anos vindo pra cá.
Acabei falando isso tudo não pra reclamar que os curitibanos
não sabem distinguir o norte do nordeste. Muito menos pra dizer a raiva que
sinto por não saberem a existência da tal Fortaleza de Nossa Senhora da
Assunção.
Cheguei à historinha das tais capitais por está lendo um
autor curitibano que eu não sabia da existência. E isso é um absurdo. Visto que
ele é idolatrado pelas bandas de cá. Tudo é Leminski. Grafites. Rota turística.
e outros bla bla blas.
Apenas por não saber quem era o tal Paulo, eu consigo
perdoar a todos aqueles que eu conheci e que conhecerei que desconhecem meu
lugar de origem.
E por falar em origem, eis que surge na minha frente. A
01:30 da manhã. Uma poesia que parecia falar de amor. Mas li de novo. Mais uma
vez. Novamente. E ela se transformou. Pareceu, para mim, a relação que
temos com nosso mundo, nossa cidade e nossas pessoas. E para ela uma foto que
parece e desaparece comigo.
Parece que foi ontem.
Tudo parecia alguma coisa.
O dia parecia noite.
E o vinho parecia rosas.
Até parecia mentira,
Tudo parecia alguma coisa.
O tempo parecia pouco,
E a gente se parecia muito.
A dor, sobretudo,
parecia prazer.
Parecer era tudo
que as coisas sabiam fazer.
O próximo, eu mesmo.
Tão fácil ser semelhante,
quando eu tinha um espelho
pra me servir de exemplo.
Mas vice-versa e vide a vida.
Nada se parece com nada.
A fita não coincide
com a tragédia encenada.
Parece que foi ontem.
O resto, as próprias coisas contem.
Paulo Leminski
