terça-feira, 26 de novembro de 2013

pareça e desapareça

                                          ponte metálica. fortaleza. ceará.

Não sei se porque meu avô foi professor de geografia, mas eu lembro de ter um mapa do brasil, colado na parede do meu quarto, durante a vida escolar. Lembro que olhava muito pra ele. E, por algum motivo, acabei decorando todos os estados e capitais do país continental. Mesmo aqueles mais distantes e impossíveis. 

Claro que para todo “decoreba” existem regras. Regras feitas pela nossa cabeça. Que nunca querem dizer nada. Mas que conseguimos o objetivo: decorar.

Assim foi para distinguir Rondônia de Roraima. Roraima. Lá em cima. Só poderia ter uma Boa Vista. E Rondônia, coitada! Escondida lá embaixo. Tinha que ser estranha e ter um Porto Velho. Mato Grosso Cuiabá me pareciam sonoros. Assim como Tocantins Palmas. 

Para o nordeste acho que tinha uma musiquinha com o nome de todos os estados e capitais. Além de ser uma obrigação.

Descendo um pouquinho, tinha o famoso sudeste. O mais fácil de decorar. Dois estados com capital de mesmo nome. E um lugar de nome Espírito Santo, só podia ser uma Vitória. 

Florianópolis era fácil! Além de São Luis, era a outra capital ilha. E apesar de Curitiba ser a cidade invisível, eu sempre soube que o Paraná existia. Meu pai passou longos anos vindo pra cá.

Acabei falando isso tudo não pra reclamar que os curitibanos não sabem distinguir o norte do nordeste. Muito menos pra dizer a raiva que sinto por não saberem a existência da tal Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção.

Cheguei à historinha das tais capitais por está lendo um autor curitibano que eu não sabia da existência. E isso é um absurdo. Visto que ele é idolatrado pelas bandas de cá. Tudo é Leminski. Grafites. Rota turística. e outros bla bla blas.

Apenas por não saber quem era o tal Paulo, eu consigo perdoar a todos aqueles que eu conheci e que conhecerei que desconhecem meu lugar de origem.

E por falar em origem, eis que surge na minha frente. A 01:30 da manhã. Uma poesia que parecia falar de amor. Mas li de novo. Mais uma vez. Novamente. E ela se transformou. Pareceu, para mim, a relação que temos com nosso mundo, nossa cidade e nossas pessoas. E para ela uma foto que parece e desaparece comigo.

Parece que foi ontem.
Tudo parecia alguma coisa.
O dia parecia noite.
E o vinho parecia rosas.

Até parecia mentira,
Tudo parecia alguma coisa.

O tempo parecia pouco,
E a gente se parecia muito.
A dor, sobretudo, 
parecia prazer. 

Parecer era tudo
que as coisas sabiam fazer.

O próximo, eu mesmo.
Tão fácil ser semelhante,
quando eu tinha um espelho 
pra me servir de exemplo.

Mas vice-versa e vide a vida.
Nada se parece com nada.
A fita não coincide
com a tragédia encenada.

Parece que foi ontem.
O resto, as próprias coisas contem.


Paulo Leminski