segunda-feira, 14 de outubro de 2013

"a memória queima. longe dela, brilha o deserto." cristóvão tezza

Era um lindo domingo de sol curitibano quando resolvi sair. Andar um pouco. Passear. Apenas por causa do rei sol. Que é tão cultuado e louvado pelas bandas de cá. Sua presença é tão esperada, pra não dizer necessária, que quando ele surge, mesmo que atrás das cinzentas nuvens, torna-se uma obrigação colocar os pés pra fora de casa. Ou melhor. O corpo inteiro.

Quando ele reina, a cidade muda. Os prédios ficam mais bonitos. O vento mais agradável. E as pessoas tornam-se mais simpáticas. E coloridas. As peças de roupa colorem a cidade. Blusa. Calça. Cachecol. Brincos. Tudo.

Havia ido à famosa feirinha do domingo. No tão animado Largo da Ordem. Não fui para comprar. Apesar de ter vontade de levar tudo. Mas apenas para o passeio. Em homenagem ao rei. E a mim.

Eu voltava serelepe e feliz depois de ver tantas cores. E sentir aquele ventinho “quente” maravilhoso. Só não melhor que a brisa cearense. E o vento do Aracati. Que percorre o Ceará trazendo alegria aos municípios jaguaribanos. Inclusive o Icó.

Com o pensamento na terra natal, e com um sorrisão no rosto, resolvi passar por dentro do mercado das flores. Não. O mercado das flores não é um mercado propriamente dito. É apenas uma grande estrutura com uma cobertura abobada onde vendem-se flores. Lindas. Coloridas. E caras. Diga-se de passagem.

Pois bem. Vinha eu e meus pensamentos quando um senhor me parou. Com um sorriso no rosto e um “boa tarde” animado, ele me ofereceu flores. E depois da minha negativa carregada de sotaque, ele puxou conversa. De onde eu era. Porque estava em Curitiba. Se estava gostando. E o que eu achava do frio. Da cidade. E das pessoas. Todas as básicas perguntas quando se trata de alguém “de fora”.

Fomos conversando. E de repente ele me veio com uma pergunta diferente. “O que é o pensamento pra você?”. Realmente me surpreendeu. Jamais eu havia pensado sobre isso. Silêncio. Depois respondi. E em seguida ele me presenteou com uma flor. “Cor de rosa”. Linda!

Mas ele não me deu a flor pela resposta, claro! Também não puxou conversa comigo porque me achou uma pessoa simpática. Nem fez a pergunta porque queria me impressionar. Longe disso. Provavelmente, todo esse “envolvimento” aconteceu porque ele é um vendedor. E seu objetivo é vender. Depois eu soube que ele sempre conversa com quem passa. E geralmente presenteia as pessoas com flores. Eu não havia sido a única.

Passado alguns dias, tive a oportunidade de comprar um livro de um escritor daqui. O afamado Cristóvão Tezza. E dentre todos que estavam na minha frente, elegi o “um erro emocional”. Não é o mais famoso dele. É apenas mais um. Mas talvez eu tenha comprado esse por causa do título. Li a orelha rapidamente. E levei.

Mero engano se eu o comprei porque achei que falava de alguma "relação amorosa" que terminaria com um final feliz, “à la” receitas das comédias românticas cinematográficas. O livro fala de uma relação sim. Mas apenas em pensamentos.

Logo na primeira página o autor revela o que seria o mote da história. E depois disso, apenas pensamentos. Dos dois personagens. Até o fim. Sei que é uma característica dele relatar os pensamentos dos personagens. Mas o que me impressionou foi a quantidade deles. Se tirássemos todos os pensamentos e deixássemos apenas os diálogos, acho que restariam apenas meia dúzia de folhas. Ou menos.

Lendo o livro lembrei da tal pergunta. E do que eu havia respondido. O que somos nós senão nossos pensamentos? Porque depois de irmos morar sozinho, em uma cidade cem por cento desconhecida, nos resumimos a eles. Podemos passar um dia inteiro sozinha. Ou vários. Sem falar sequer uma palavra. Mas o juízo está lá. Queimando.