Era um lindo domingo de sol
curitibano quando resolvi sair. Andar um pouco. Passear. Apenas por causa do
rei sol. Que é tão cultuado e louvado pelas bandas de cá. Sua presença é tão
esperada, pra não dizer necessária, que quando ele surge, mesmo que atrás das
cinzentas nuvens, torna-se uma obrigação colocar os pés pra fora de casa. Ou melhor.
O corpo inteiro.
Quando ele reina, a cidade muda. Os
prédios ficam mais bonitos. O vento mais agradável. E as pessoas tornam-se mais
simpáticas. E coloridas. As peças de roupa colorem a cidade. Blusa. Calça. Cachecol.
Brincos. Tudo.
Havia ido à famosa feirinha do
domingo. No tão animado Largo da Ordem. Não fui para comprar. Apesar de ter
vontade de levar tudo. Mas apenas para o passeio. Em homenagem ao rei. E a mim.
Eu voltava serelepe e feliz depois
de ver tantas cores. E sentir aquele ventinho “quente” maravilhoso. Só não
melhor que a brisa cearense. E o vento do Aracati. Que percorre o Ceará
trazendo alegria aos municípios jaguaribanos. Inclusive o Icó.
Com o pensamento na terra natal,
e com um sorrisão no rosto, resolvi passar por dentro do mercado das flores. Não.
O mercado das flores não é um mercado propriamente dito. É apenas uma grande estrutura com uma cobertura abobada onde vendem-se flores. Lindas. Coloridas. E caras. Diga-se
de passagem.
Pois bem. Vinha eu e meus
pensamentos quando um senhor me parou. Com um sorriso no rosto e um “boa tarde”
animado, ele me ofereceu flores. E depois da minha negativa carregada de
sotaque, ele puxou conversa. De onde eu era. Porque estava em Curitiba. Se
estava gostando. E o que eu achava do frio. Da cidade. E das pessoas. Todas as básicas
perguntas quando se trata de alguém “de fora”.
Fomos conversando. E de repente
ele me veio com uma pergunta diferente. “O que é o pensamento pra você?”.
Realmente me surpreendeu. Jamais eu havia pensado sobre isso. Silêncio. Depois
respondi. E em seguida ele me presenteou com uma flor. “Cor de rosa”. Linda!
Mas ele não me deu a flor pela
resposta, claro! Também não puxou conversa comigo porque me achou uma
pessoa simpática. Nem fez a pergunta porque queria me impressionar. Longe disso.
Provavelmente, todo esse “envolvimento” aconteceu porque ele é um vendedor. E seu
objetivo é vender. Depois eu soube que ele sempre conversa com quem passa. E geralmente
presenteia as pessoas com flores. Eu não havia sido a única.
Passado alguns dias, tive a
oportunidade de comprar um livro de um escritor daqui. O afamado Cristóvão
Tezza. E dentre todos que estavam na minha frente, elegi o “um erro emocional”.
Não é o mais famoso dele. É apenas mais um. Mas talvez eu tenha comprado esse
por causa do título. Li a orelha rapidamente. E levei.
Mero engano se eu o comprei
porque achei que falava de alguma "relação amorosa" que terminaria com um final feliz, “à
la” receitas das comédias românticas cinematográficas. O livro fala de uma
relação sim. Mas apenas em pensamentos.
Logo na primeira página o autor revela o que seria o mote da história. E depois disso, apenas pensamentos. Dos
dois personagens. Até o fim. Sei que é uma característica dele relatar os
pensamentos dos personagens. Mas o que me impressionou foi a quantidade deles. Se
tirássemos todos os pensamentos e deixássemos apenas os diálogos, acho que
restariam apenas meia dúzia de folhas. Ou menos.
Lendo o livro lembrei da tal
pergunta. E do que eu havia respondido. O que somos nós senão nossos pensamentos? Porque depois
de irmos morar sozinho, em uma cidade cem por cento desconhecida, nos resumimos
a eles. Podemos passar um dia inteiro sozinha. Ou vários. Sem falar sequer uma
palavra. Mas o juízo está lá. Queimando.
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