segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Sr. Curitiba


Dois dias após a saída (na segunda-feira) o cara legal adiciona no facebook.

Sr. Curitiba: Oi, tudo bem?
Moça: Tudo e com você?
SC: Tudo bem também... Boa a festa ontem, né?
M: Pois é, achei divertida, pessoas legais...
SC: E você, o que veio fazer em Curitiba? Como é que você larga o calor do Ceará?
M: Rs. É que pra gente estudar tem que fazer esses esforços, né? Rs.
SC: Mas já tá adaptada a cidade? Costuma sair pra onde?
M: No começo é sempre mais difícil... mas com o tempo você vai fazendo o que gosta, achando os lugares que agradam.

(...)

SC: Nossa, você gosta desse tipo de música? Que massa! Eu também.
M: Massa mesmo, hein? É difícil encontrar pessoas que gostem disso. Mudando de assunto... Nossa, tô com frio!
SC: Ah, mas hoje nem tá tão frio assim.
(...)

SC: Moça, foi bom falar com você! Nos comunicaremos mais vezes.
M: Ô, Sr. Curitiba, também foi bom conhecer você melhor. Até mais!

No decorrer da semana, o papo continua intenso. Afinidades vão sendo descobertas. Pra comunicação ficar mais "próxima", eles se adicionam também no whastapp.

Chega a sexta-feira.

SC: Oi, moça! E aí, o que você vai fazer hoje?
M: Ah, acho que nada. Não tenho nada combinado. E você?
SC: Eu vou pra um barzim com uns amigos. Um lugar bem legal!
M: Olha, que bacana! Interessante, hein?
SC: É, esses meus amigos são legais. Vai ser divertido!
M: Ah, pois beleza. Se divirta!
SC: Obrigada, depois nos falamos! Beijo grande!

Reparem que a moça deu abertura para eles saírem. Na verdade, era o que ela estava querendo após uma semana de conversas sem parar. Porém, o rapaz nada de tomar atitude e chamá-la para nada. "Será que ele quer ser só amigo? Curitibanos são assim? Posso tomar atitude? Se fosse lá na minha terra... Idiota!".

Chega o sábado e novamente o assunto continua. Uma observação: ele mandou foto pra ela enquanto estava na festa no dia anterior, dizendo que ela iria amar aquele lugar.

SC: E o sabadão, moça? Qual vai ser a boa?
M: Ah, eu vou assistir um apresentação de uma banda de rock que dizem que é muito boa. Vamos?

(Siiiim, ela tomou atitude. Era necessário.)

SC: Ah, tenho que ver se meus amigos querem ir. Qualquer coisa, te aviso! Você vai com quem?
(....)

Nesse momento, a moça pensa: "Como assim chamar os amigos? Ele não entendeu que eu estou o chamando pra sair?"

Sábado à noite: Rock. A moça vai bem bonita achando que vai encontrar o rapaz.

Duas horas depois, o Sr. Curitiba chega.

SC: Olá, que lugar legal esse, né?
M: Pois é, eu também achei. A banda está ótima. Ah, deixa eu te apresentar meus amigos.

Duas horas depois de se encontrarem.

SC: Você tá bonita, hein?
M: Ah, obrigada! Você também! Vamos lá pra frente?

Nessa altura do campeonato nem paquera rolava. E ir pra frente do palco seria uma tentativa de ficar mais próximo, mas... Nada! Os mesmo pensamentos retornam: "Ele quer ser só meu amigo? Se fosse lá na minha terra.. Idiota!"

Eles se divertem a noite toda. Brincam, balançam a cabeça juntos, cantam as músicas, compram cerveja, conversam com os amigos. Até que o rapaz solta...

SC: Moça, eu queria muito ficar com você. Porém, não vou ficar hoje.

A moça, diante dessa situação, e com o já quase final da festa,  prefere ir embora com mil questionamentos na cabeça "Qual é a desse cara? Conversa que só diz que está interessado e não faz nada? Só podia ter outra paquera naquele lugar. Idiota!

Domingo. Novos papos via redes sociais. Os dois fingem que nada aconteceu no dia anterior.

SC: E aquela festa, foi boa, né? Você estava linda!
A moça pensa: "Qual é a desse cara? Não estou entendendo mesmo. Ele quer ser amigo? Amizade é bom. É ótimo. Mas é bom quando a gente sabe o que a pessoa está querendo!"

M: Ah, eu também gostei... foi ótimo!

Duas horas de papo.

SC: Moça, vou dormir. É sempre muito bom falar com você.
M: Ah, também! Abraços.

De novo, um novo papo, novas afinidades e nada. Nada. A menina continua sem entender. Curitibanos? Eles são assim? Nessa dúvida cruel, passa a pedir opiniões para outros senhores curitibanos: Moça, os curitibanos são assim mesmo. Lentos. Até os rápidos daqui, são lentos. Curitiba é a cidade do chá. Quando não é a menina que coloca ele no chá, é o outro que faz. Sempre tem alguém colocando um ou outro de molho. Moça, aqui em Curitiba é assim. Você tem que acostumar com esse jeito. O negócio é o seguinte: tem que ter mais de um paquera. Quando um deixa você de molho, você vai para o outro. É sempre bom ter outro plano.

Mais uma semana se passa. A mesma história. Conversas e mais conversas. A mesma história. Também a lentidão, a dúvida se é uma paquera ou amizade, o não chamar para sair.

 E mais uma semana passa. E mais uma semana.

Chega o final de semana. Nada do rapaz chamar a moça para sair. Coincidentemente, os dois se encontram no mesmo lugar. Papo pra cá, papo pra lá. Nada da linguagem corporal. Nada do rapaz nem tocar na moça. As horas vão passando, a companhia vai ficando cada vez mais agradável. Bebida vai, bebida vem, e, finalmente, no final da festa, após semanas de conversas, os dois se beijam. Beijam, abraçam, abraçam, beijam. "Valeu esperar" a moça pensa.

 Na hora de ir embora, a moça, que nessa altura do campeonato já achava que as coisas poderiam andar mais naturalmente (e não lentamente), diz para o Sr. Curitiba:

M: Você vai embora agora? Posso ficar mais um tempo aqui com você.
SC: Não, não. Pode ir com suas amigas.

E assim iniciou mais uma semana. E os papos, e os bons papos, e a afinidade, e o também não chamar para se encontrar. 

Obs: Gostaríamos de deixar claro que essa é uma história fictícia. Que o rapaz e a moça são baseados na nossa (as escritoras do blog) imaginação, histórias de bar, conversas costumeiras e observações realizadas.  







quinta-feira, 26 de setembro de 2013

há sonhos que são de verdade

Era noite e eles bem pequeninhos, uma graça de crianças. Estavam dois em cima de um caminhão de lixo enquanto um ficava na calçada jogando os sacos de lixo para os dois lá de cima. Não tinham semblantes de tristeza, mas também não tinham feições de crianças felizes apenas estavam fazendo o que provavelmente fazem todos os dias quando as lojas do centro fecham e deixam papelões, sacos e papeis na calçada. 

Um pouco mais distante estava uma senhora já idosa, por volta de seus 80 anos. Pele enrugada dos dias vividos, casaco cinza, postura encurvada, cabelos brancos e um cansaço enorme! 

Na rua em que acontecia essa cena, passava uma moça junto com alguns amigos. Ela olhou para os amigos e disse: "Ver essas coisas me partem o coração. Isso é negligencia, cara! Da mãe, do Estado e nossa!". Ela não aguentou ver aquela cena triste, chegou para senhora de cabelos brancos e disse: "Mãezinha, não deixa eles catarem mais lixo não, o que a gente pode fazer pra melhora isso hein?!

A senhora olhou pra ela com aquele olhar cansado, baixou a cabeça, voltou a pegar os papelões e nada disse.... a moça saiu...e aquela rua não era mais molhada pelas chuvas de Curitiba, mas pelas lágrimas da moça que se sentiu muito inútil frente aquela cena toda.

.escrito por Larissa Siqueira que sonhou com esse texto. 

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Até no Alasca.

Novo dia frio em Curitiba, assim como acontece na maior parte do ano (ou, pelo menos, do que presenciei). Sair de casa é sempre um tormento necessário. 

Adentro o Inter II (acho que já falei dele algumas vezes, mas pra recordar, ele é como se fosse o Grande Circular de Fortaleza, roda a cidade "toda"). Dou sorte de conseguir ir sentada, o que de fato, é uma sorte. O ônibus demora a sair, e, como é de costume, escolho as pessoas que vou ficar reparando (é, reparando, escutando a conversa, enfim. Aí vai uma dica: é uma ótima forma da "viagem" no busão se tornar mais divertida. É cada gente, cada história).

Olho pras pessoas que estão na porta do ônibus e vejo um rapaz de mais ou menos 27 anos, baixinho, fortinho, moreno, "cabeça chata" tentando puxar assunto com outros rapazes que tinham o mesmo estereótipo: altos, magros, brancos, olhos claros, cabelo claro, engravatados. 

Cabeça-chata: "ei, mah, como é que tu tá aguentando esse frio todo? tá muito friiiio!"
Engravatados: nada de falarem nada. Dão um sorriso amarelo. 
O cabeça-chata não se importando nada com essa demonstração, continua: Mah, é sério, tá mto frio. Eu sou lá do cIará, se fosse lá, tava um calor danado e vocês precisariam usar protetor solar. 
Engravatados: o sorriso amarelo continua. 

Eu, que lá estava observando a conversa toda, começo a rir, sozinha, morta de feliz, pensando "esse nosso ceará é muito simpático mesmo, até no frio".

De repente, não mais que de repente, o cabeça-chata cearense se anuncia pro ônibus todo (mais especificamente pro "pavimento" que eu estava). 

Cabeça-chata (com o sotaque mais lindo!): Oi, pessoal! Meu nome é "Cabeça-chata", sou lá do Ceará, e lá não tem esse frio não ("no Ceará não tem disso não, não tem disso não, já dizia Luiz Gonzaga"). Vocês não tão morrendo de frio não? (todo mundo permanece calado, inclusive eu, que só consigo abrir um largo sorriso). Eu vim lá da minha terra porque faço parte do Manassés (pqp, manassés não. que horror!) e estou aqui pra divulgar a casa e oferecer esses produtos pra vocês, apesar de ter essas placas no ônibus dizendo que é proibido vender e pedir esmola (achei genial essa parte, pq no Ceará a gente pode fazer "o que quiser nos ônibus"). 

E assim as explicações sobre a Manassés, uso de drogas e a importância da compra daquele kit ocorreu. Ali na frente, eu via, claramente, uma pessoa super calorosa, apesar do frio que estava reclamando, e engraçada (ô povo cearense engraçado! armaria!), capaz de tirar brincadeira com todo mundo, sem ofender. As pessoas, que a princípio, estavam bem fechadas, com decorrer da venda, já se comunicavam entre si com o olhar sorrindo.

Quando acabou o comércio, permaneci sem falar nada com ele. Pensava comigo "pq sempre eu tenho que falar.. não consegue ficar quieta não, Amália?". 

O cabeça-chata, até chegar sua parada (tubo), foi tentando puxar assunto com os engravatados. Que, inclusive, nada obteve sucesso. 

Coincidentemente, descemos na mesma parada. E, como eu não consigo ficar quieta, passei por ele já esticando a mão:

Amália: Oi, eu também sou Cearense!
Cabeça-chata: Sério?? Por isso que você ria tanto. Tô dizendo que o cearense é uma praga mesmo... Tem até no Alasca. Tu não tá morrendo de frio não?

E, assim, pela primeira vez na vida, fiquei contente de encontrar um Manassés no ônibus. 

Obs: quem quiser saber o que é Manassés (apesar de eu achar melhor vocês ficarem na ignorância: http://www.instituicaomanasses.com.br/

Escrito por:  Amália Beatriz. Cearense de genética e coração, psicóloga de profissão e paixão. Possuo a espontaneidade e alegria como regentes da vida. Vontade constante de aprender, descobrir, encantar e desencantar. Moradora de Curitiba desde fevereiro de 2013 

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

amália


Muitas pessoas já me falaram do meu sorriso. Sorrisão. Que podia fazer propaganda da “colgate”. Pois bem. Conheci uma pessoa que tem um SORRISÃO. Maior que o meu. E radiante. Radiante por existir. Por aproveitar a vida do jeito que ela é. De ver tudo com os olhos da alegria. Nos conhecemos a pouco. Mas já se faz necessária na minha vida. Ela é uma pessoa colorida que tornou meus dias cinzentos e frios mais felizes. Ela que tem uma garra de viver. E um brilho no olhar. Ela mesma. Essa menina que hoje faz 26 aninhos. Te desejo muitos motivos para você continuar com essa felicidade. Parabéns!


“Tirei meu chapéu de palha, e meu paletó de linho. Convidei maria Amália, pra sambar no chuvisquinho”

domingo, 8 de setembro de 2013

quem fica

De repente decidiu ir. Em uma semana estava aqui e na semana seguinte não estava mais. Não avisou a muita gente, só aos mais próximos. Tomar esse tipo de decisão não é fácil, deixar “uma ruma” de coisa pra trás e abraçar o novo, não é para todo mundo. Louvável. Mas como é pra quem fica?

De repente a casa ficou mais vazia, o quarto com as fotos na parede já não tem a presença constante daquela menina morena dos cabelos cacheados. Uma das vozes não está mais lá. Foi falar alto em Curitiba.

É triste, dá saudade, a gente sente uma falta danada, mas sabe que aquela ausência vai servir de experiência pra pessoa que resolveu ir, mesmo que o coração de quem ficou aqui esteja apertado.

O bom disso tudo é poder sentir como as coisas pequenas fazem falta. A voz rouca, o cheiro do cabelo, as fofocas madrugada a dentro, os resmungos de quem precisa acordar cedo pra trabalhar, as brincadeiras com a sobrinha que teima em repetir a frase: “Mãe tô com saudade da tia Vivi!” e mais uma ruma de coisinha que vai juntando e no final vira um “coisão” que a gente dá esse nome de saudade.

Ah, a companhia! Um dia desses fui só num evento chamado Ceará das Rabecas, que todo ano vamos juntas. Cheguei, sentei e me vi só...mas como assim só? Cadê minha parceira de eventos culturais? Ah, ela tá em Curitiba. É claro que depois encontrei pessoas conhecidas que me acolheram, mas...não é a mesma coisa. Como faz falta a companheira.

Tem uma coisa que deixa essa morena com raiva, o fato de eu ter “herdado” os amigos dela. Mulher, tu acha que minha presença substitui a tua? Óbvio que não! Mas isso é fato, quem fica “toma” os amigos de quem foi...assumo essa responsabilidade.

Mas ruim mesmo é a falta que quem foi faz em quem fica. Um vazio. Nem com a voz ao telefone é preenchido, nem com as conversas no facebook, ou no Skype. A presença faz falta. O fato é que nós, humanos (principalmente os seres praianos), precisamos da presença, calor, carne, toque, abraço, beijo...isso faz falta, ah se faz.

Escutar as frases “Se a nêga tivesse aqui ela ia gostar disso...” “Olha é a cara da tua irmã...” “Tô com tanta saudade daquela nêga...em setembro vou visitar ela...” É bom porque faz a gente lembrar da pessoa em sua essência, o que ela faz que te agrada ou que te desagrada, e te faz refletir o quanto aquela pessoa é importante para quem fica, o quanto é importante para a rotina daquela casa e daquelas pessoas que estão com saudade.

Saudade. Dizem que essa tal palavra só existe no português. E têm orgulho disso. Eu não. Tudo bem que acho a escrita dela linda. Mas o que ela significa. Tenho pavor. Sempre tive. Nunca consegui lidar com esse sentimento. Sentimento que sempre doeu e me fez chorar. Saudade das férias. De Tibau. Dos meus primos amados que moravam longe. Dos amores. Das paixões. Que sempre foram distantes. Do primeiro “namorado” ao último. Sem exceção. Dos tios que moravam e moram longe. Saudade da infância. Do colo das minhas avós. E do meu avô que se foi cedo. Saudade dos lugares. Dos cheiros. E das músicas. As despedidas das férias sempre eram regadas a lágrimas. E os primos já nem se importavam tanto. Porque sempre era e ainda é assim.

A saudade agora se transformou. Ela não dói mais. Não sinto saudade de quem ficou. Sinto falta. Sentir saudade dói. Sentir falta não. Sinto falta de assistir televisão com minha mãe. De ficar até tarde conversando com ela. Das risadas. De pedir pra ela dormir comigo. Porque minha cama é melhor que a dela.

Sinto falta de ouvir a voz da Luiza. Porque ela tá crescendo. Mas a voz é a maior característica que ela ainda é um bebê pra mim. Sinto falta de ver ela dançar na frente da televisão. De pedir um copo de água e ela dizer que não vai buscar. Das risadas. E de tomar banho junto fazendo propaganda de xampu.

Sinto falta de reclamar que a Natália demora a se arrumar pra sair. Reclamar que ela coloca tudo em cima da minha cama. Que na verdade é dela. De fofocar enquanto tomamos banho. Das gargalhadas enquanto conversamos “miolo de pote”. De desabafar e ouvir a resposta “ô besteira”. Das marmotas. Falta do café da manhã. De conversar horas com a Regina. De beijar o Duc. E reclamar dele também.

Sinto falta do meu pai. Falta dos poucos almoços do domingo. Falta do abraço dele. Mas essa relação é um capítulo à parte. Porque percebemos que nos falamos mais aqui, que quando estou lá. Eu estou ligando mais. Vendo mais. Tudo bem que é por Skype. Mas continuo a ligar pra pedir ajuda. Com o computador. Com a torneira que quebrou. Com o aquecedor que está esquentando demais. Com a televisão que não funciona. Com tudo que eu preciso. 

Sinto falta do calor da fogueira. Do cheiro da saia. Dos sorrisos na roda. E das gargalhadas nas emboladas. Falta da hora do café no escritório. Porque eu sempre reclamava de descer aquelas escadas. Falta de conversar e gargalhar quando saímos. E depois perceber que todos os garçons estavam “sentados” na nossa conversa. Sinto falta de todos os meus amigos. Sem exceção. Todos.

Sinto falta e não dói. Porque tenho certeza que o amor não diminui. Que sempre que eu quiser eles estarão lá. E eu estarei aqui. Como se estivéssemos no mesmo lugar. Mesmo existindo a distância.

E o mais importante de tudo, é que tem volta. Quer dizer, até agora tem. E se não tiver volta, ainda vão existir férias, feriados e finais de semana.

PS.: não tenho ódio de você está com meus amigos. Tenho ódio porque não estou junto!

Um beijo de quem fica pra quem foi. E de quem foi pra quem fica.


Texto escrito por Natália Escóssia. E Virgínia Pitta. O sobrenome é diferente, mas somos irmãs. Só que um lado puxou o pai e o outro puxou a mãe.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

cidade

Outro dia me perguntaram sobre a minha visão da cidade de Curitiba. É assim que eles se referem a capital mais fria do Brasil. Quais as diferenças. Semelhanças. Se estou gostando. E sempre me pedem a “visão como arquiteta”. Claro! Acho que esperam que eu fale dos prédios. De suas histórias. Das ruas. Da “acessibilidade”. Sempre indo para a tal teoria. Que por sinal, é muito bem estruturada nas folhas de Jane Jacobs, Kevin Lynch e Jaime Lerner. Mas não gosto de falar muito sobre “a arquitetura”. Acho um papo meio cult-bacaninha que parece não ter fundamento. Porque, na verdade, para falar de uma cidade, ou de sua “arquitetura”, não precisa ter conhecimento teórico. Precisa ter conhecimento de causa. Tem que ser transeunte, un passant, piéton, pedestre, ou como queira chamar.

Para entender os prédios e falar deles, para saber se o tal transporte coletivo “funciona”, tem que viver a cidade. Andar a pé. Errar o caminho. Pegar um prédio, uma rua ou uma esquina para localização. Andar de ônibus. Pedir informação. Errar o caminho. Se comunicar com as pessoas. Se esquivar, as vezes. Precisa olhar pro céu. E olhar ao redor. Precisa saber onde é o centro da cidade. E para onde ela se expandiu. Para depois saber onde se localizam os bairros. E conseguir circular.

É isso que eu tento fazer por aqui. Se não o medo toma de conta e a cidade nos engole. E meus dias tem sido assim. Andar a pé e de ônibus. Olhar. Ver. Observar. Perceber. Me achar. E me Perder. E estou adorando. Tudo bem que morar no centro é uma vida a parte. Tudo que eu faço é perto. Ou muito perto. O ideal seria uma bicicleta. Mas confesso que andar a pé, de madrugada, por alguns 15 quarteirões ou sair à noite e voltar pra casa de ônibus não tem preço. E dizem que o centro de Curitiba é perigoso. Porque não conhecem Fortaleza a noite. De dia. De madrugada. A qualquer horário. O problema vai ser encarar a confusão que está o canteiro de obras cearense. Já devo ter desaprendido a dirigir.

Sempre que surge a discussão sobre andar ou não de ônibus, a percepção que tenho é que nós, brasileiros, achamos que andar de ônibus é coisa do outro mundo. Porque na tal Europa o busão é o maior charme. Mas só lá. Aqui o transporte coletivo nunca funciona. Porque quem fala com essa propriedade não usufrui desse meio de transporte. Raras são as pessoas que conheço que precisam de ônibus em Fortaleza. A começar de mim. Me pergunto o que significa a palavra funcionar. O famoso “tubo curitibano” é um ônibus normal. Só é bem maior. E não tem nada de diferente do outro ônibus. Sim. Aqui tem os tubos e as paradas convencionais. Tudo igual a Fortaleza. Os ônibus que passam no tubo não circulam Curitiba inteira. Então pegar o ônibus comum também é muito necessário. Mas continuam a dizer que aqui funciona. E lá não. Deve ser o clima. Porque é um charme pegar ônibus no frio. Já no sol quente...

Uma coisa que ajuda a andar de ônibus é a inexistência do sol a pino, dos buracos, do engarrafamento e dos assaltos. No curto período de tempo que andei de ônibus na "Fortaleza Bela", sempre chegava nos lugares exausta de calor. Pra não dizer pingando de suor. E sempre escondendo a bolsa. Celular e dinheiro? Muito perigoso dentro ônibus. Por aqui também deve ter roubos. Mas não como em Fortaleza. Eles são tão “civilizados” que tem a voz da mulher do aeroporto dentro do ônibus com a orientação: cuidado com furtos no interior do veículo!

Hoje eu fui na casa de uma amiga. Uma distância que podia ser percorrida pelos meus pés. Mas fui de ônibus. Depois de 4 paradas ou estações: Cristo Rei! Um novo bairro para marcar no meu “google earth”. A primeira impressão já foi a melhor. Tive que subir uma ladeira. E depois de muito forçar minhas perninhas tive uma vista linda de Curitiba. Pude ver os prédios lá no fundo fazendo uma “skyline”. Lindo. Fui andando. Comecei a perceber os prédios. Como são diferentes do meu bairro. E de Fortaleza. Prédios baixinhos. Sem pintura manchada. Nem pichação. E percebi o quanto a "Capital da Alegria" é sufocada por prédios enormes. Sempre precisamos olhar para cima pra ver um prédio na totalidade, porque na altura do observador é impossível. Aqui a cidade é mais aberta. 

Na volta precisei parar na rodoviária. Que é exatamente o meio do caminho entre minha casa e o Cristo Rei. Dentro do ônibus, percebi que nesse trecho existe um viaduto. Na hora pensei que se eu tivesse ido a pé, teria que passar por baixo dele. Tenho verdadeiro pavor de passar a pé por baixo de viadutos. Essas áreas sempre são desertas e não tem nada que nos faça sentir a cidade. Perto da minha casa em Fortaleza tem um viaduto. E lá em baixo tem apenas carros estacionados. Ou moradores de rua. E agora, com as obras, não tem nada. Apenas uma luz na escuridão. A cara do assalto. Lógico que lembrei da discussão teórica e prática que está acontecendo no Cocó. Um viaduto naquela área? Apenas com a finalidade de deixar mais perigoso do que já é.

Curitiba é totalmente diferente da minha terra. Em tudo. Prédios. Pessoas. Clima. Calçadas. Ônibus. Limpeza. Céu. Cor. Memória. Telhados. As vezes melhor e as vezes pior. Por aqui passou um tal de Jaime Lerner. Que tive como referência na faculdade. Ouvi dizer que ele era um político. Com todos os significados que essa palavra possa ter. Que as “melhorias” que fez foi apenas por política. A diferença é que ele fez coisas boas para a cidade, atingindo diretamente quem vive aqui. E com esse caso de política x cidade que existiu, me pergunto porque não fazem isso na minha cidade querida. Não só em relação ao viaduto. Nem as centenas de árvores que cortaram. Nem em relação a ciclovia apagada. Nem ao megalomaníaco aquário (3° maior do mundo). Nem aos novos hospitais construídos que não funcionam. Mas em relação a tudo. A tudo que já foi feito e que vão fazer sem pensar. Sem pensar no outro. Sem pensar na cidade. Sem pensar em quem precisa dela.