sexta-feira, 23 de agosto de 2013

o miolo da estória

Conheci as músicas de boi antes mesmo de saber o que era a brincadeira do bumba boi. Soube das lendas da ilha, antes mesmo de pisar em São Luís. Me encantei quando vi pela primeira vez um maracá com suas fitas coloridas, tocando os versos de “folia de príncipe” e “pedra de responsa” no teatro José de Alencar. Acho que eu tinha uns 11 anos quando fui pela primeira vez a um show do Chico César. Depois conheci o maranhense José de Ribamar, vulgo Zeca Baleiro, que canta as lendas e brincadeiras do maranhão, algumas vezes disfarçadas de rock ou de brega, como a “Serpente” e “Semba”, mas que não passam de toadas de boi, tambor ou mina.

Eu só percebi tudo isso depois que “fui pra ilha maravilha”. Descobri que tudo que era cantado nas “minhas músicas” era de verdade. As lendas e brincadeiras (que são muitas) fazem parte daquela cidade velha e daquele povo. Eles amam aquilo. Mesmo não tendo nada. Apenas com a fé nos santos e nos orixás. Fé. Eles tem muita. E talvez precise. Porque o descaso é grande demais. Sempre penso que poderia ser uma Amsterdam, mas é São Luís.

E foi com esse meu encanto pelas brincadeiras que quis ver aquele espetáculo: “o miolo da estória”. O resumo na programação do Festival Palco Giratório dizia que “a estória apresenta a vida e os sonhos de João Miolo, operário da construção civil e brincante de bumba meu boi”. Isso foi o suficiente pra me fazer sair de casa.

Ao entrar no teatro, fomos recebidos ao som de um boi. Era boi da Maioba. O coração já bateu mais forte. Sentei no meu lugarzinho de sempre. No patamar mais alto da arquibancada para poder olhar tudo. Observei o cenário. Vários marcacás no chão. Uma escada de madeira. Um carrinho de mão. Estruturas de madeira. Uma pá. Algumas latas de tinta. Tudo isso no chão, em cima de uma lona circular. E lá no fundo, pendurado, como quem não tem a intenção de aparecer, o pandeirão.

Black out e começa. Vestido como pedreiro, de capacete e colete, ele inicia com versos de literatura de cordel. Esse primeiro personagem era um tipo de narrador da história. A cada black out e a cada “troca de figurino”, o narrador sai e entra João Miolo. Que contava sua história e dialogava com os personagens como quem conversa com a plateia. Um brincante de bumba boi que trabalha na construção civil. Pobre. Como grande parte do povo maranhense. Estado rico de gente pobre. Mas a pobreza não é o foco. Na verdade ela é retratada de uma forma engraçada. O foco é o amor pelo boi. A fé na brincadeira. E a paixão pelos santos. São Pedro e São João.

A história se desenrola. De dia pedreiro e a noite servente do boi. Sua real profissão. Quantas histórias existem nos terreiros. Quantas histórias existem na construção.  Quantas histórias são as mesmas, mas só olhamos para aquelas que achamos virtuosas. Pensei na fala do pequeno príncipe, quando ele observa a forma na qual apresentamos as pessoas: pelo que elas fazem, e não pelo que elas são. Lembrei de quantos Miolos já conheci. Dos capoeiristas-porteiros. Do dj-historiador. Do surfista-arquiteto e dos músicos-arquitetos (que não é difícil). Do mestre de tambor-agricultor. Do baterista-mestre de obras. E de tantos outros que não conheci.

E em meio a diálogos, narrativas em cordel, músicas e texto, o mote da história surge. João quer sair de baixo do boi para pegar o maracá e cantar suas toadas. Miolo quer colocar seu pensamento em forma versos, e não em forma de passos. Mas seu mestre não deixa. Diz que sua vocação está nos pés. Que aquele boi não seria nada se não tivesse o João, para manipulá-lo com a mesma leveza que fazia ali. Naquele momento. Com o pesado carrinho de mão.

Arrasado com tudo aquilo ele se desespera. Resolve sair da brincadeira. E como consequência do destino ou castigo do santo, acaba com um sério problema de saúde. É aí que a fé maranhense aparece. Fé nos santos e nos orixás. Com a mesma intensidade e respeito. Promessa para o boi. E ele volta a dançar. A brincadeira deles é isso mesmo. É misturada com fé e religião. É uma brincadeira que não tem nada de brincadeira.

Tudo isso é apresentado no palco. O texto não é autobiográfico. Mas o espetáculo é a biografia daquele povo. Sofrido. Que encontra a fuga nas brincadeiras. Ele conseguiu retratar a beleza e a pobreza da ilha em apenas uma hora. A cada passo pesado da construção eu lembrava do tombamento dos casarões. A cada movimento leve dos pés, eu lembrava do colorido brilhoso das roupas. Da alegria. Da dança. E do apito. A cada diálogo eu lembrava da fé maranhense.

O sotaque não podia se esconder. Quantos “nhs” puxados e quantos diminutivos. Quantos “pequenos” e “ças criança”. Quantos detalhes. E todos estavam lá. Nas músicas. Nas danças. Nos movimentos. Nas personagens. Nos diálogos. Na leveza. Na luz. E no cenário. Ah! o cenário. Esse também encantou. O carrinho de mão que fazia função de boi e de altar para São Pedro. A pá era “guidon” e as peneiras eram as rodas da bicicleta. A lanterna que era vela. O “pôster” de São Pedro que era uma placa de estacionamento. As latas de tinta que eram cama. O capacete que era chapéu de vaqueiro. As estruturas de madeira que eram lixo e tijolos. O capacete de solda que era máscara de cazumbá. Todos os elementos cumpriram sua função.

Promessa realizada. João fica bom. E paga sua obrigação: dançando o boi no auto da escada de madeira que, iluminada, se transformou na escadaria da Capela de São Pedro. Com o pandeirão lá no alto, lindo, todo iluminado, brincando de lua cheia.

Lauande Aires. Esse é o nome do maranhense. Texto, direção, atuação, figurino e cenografia. Santa Ignorância Companhia de Artes. Eles disseram que não tinham nada para fazer a peça. Apenas a vontade. O desejo. Queria retratar essa realidade. 10 meses de preparação. E finalmente conseguiu fazer parte do Festival Palco Giratório, que teve 15 edições anteriores, e aquela era a segunda vez que uma companhia de teatro maranhense se apresentava. 

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