Conheci
as músicas de boi antes mesmo de saber o que era a brincadeira do bumba boi.
Soube das lendas da ilha, antes mesmo de pisar em São Luís. Me encantei quando
vi pela primeira vez um maracá com suas fitas coloridas, tocando os versos de
“folia de príncipe” e “pedra de responsa” no teatro José de Alencar. Acho que
eu tinha uns 11 anos quando fui pela primeira vez a um show do Chico César.
Depois conheci o maranhense José de Ribamar, vulgo Zeca Baleiro, que canta as
lendas e brincadeiras do maranhão, algumas vezes disfarçadas de rock ou de
brega, como a “Serpente” e “Semba”, mas que não passam de toadas de boi, tambor
ou mina.
E foi com
esse meu encanto pelas brincadeiras que quis ver aquele espetáculo: “o miolo da
estória”. O resumo na programação do Festival Palco Giratório dizia que “a
estória apresenta a vida e os sonhos de João Miolo, operário da construção
civil e brincante de bumba meu boi”. Isso foi o suficiente pra me fazer sair de
casa.
Ao entrar
no teatro, fomos recebidos ao som de um boi. Era boi da Maioba. O coração já
bateu mais forte. Sentei no meu lugarzinho de sempre. No patamar mais alto da
arquibancada para poder olhar tudo. Observei o cenário. Vários marcacás no
chão. Uma escada de madeira. Um carrinho de mão. Estruturas de madeira. Uma pá.
Algumas latas de tinta. Tudo isso no chão, em cima de uma lona circular. E lá
no fundo, pendurado, como quem não tem a intenção de aparecer, o pandeirão.
Black out
e começa. Vestido como pedreiro, de capacete e colete, ele inicia com versos de
literatura de cordel. Esse primeiro personagem era um tipo de narrador da história.
A cada black out e a cada “troca de figurino”, o narrador sai e entra João
Miolo. Que contava sua história e dialogava com os personagens como quem
conversa com a plateia. Um brincante de bumba boi que trabalha na construção
civil. Pobre. Como grande parte do povo maranhense. Estado rico de gente pobre.
Mas a pobreza não é o foco. Na verdade ela é retratada de uma forma engraçada.
O foco é o amor pelo boi. A fé na brincadeira. E a paixão pelos santos. São
Pedro e São João.
A
história se desenrola. De dia pedreiro e a noite servente do boi. Sua real
profissão. Quantas histórias existem nos terreiros. Quantas histórias existem
na construção. Quantas histórias são as mesmas, mas só olhamos para
aquelas que achamos virtuosas. Pensei na fala do pequeno príncipe, quando ele
observa a forma na qual apresentamos as pessoas: pelo que elas fazem, e não
pelo que elas são. Lembrei de quantos Miolos já conheci. Dos
capoeiristas-porteiros. Do dj-historiador. Do surfista-arquiteto e
dos músicos-arquitetos (que não é difícil). Do mestre de
tambor-agricultor. Do baterista-mestre de obras. E de tantos outros que não
conheci.
E em meio
a diálogos, narrativas em cordel, músicas e texto, o mote da história surge.
João quer sair de baixo do boi para pegar o maracá e cantar suas toadas. Miolo
quer colocar seu pensamento em forma versos, e não em forma de passos. Mas seu
mestre não deixa. Diz que sua vocação está nos pés. Que aquele boi não seria
nada se não tivesse o João, para manipulá-lo com a mesma leveza que fazia ali.
Naquele momento. Com o pesado carrinho de mão.
Arrasado
com tudo aquilo ele se desespera. Resolve sair da brincadeira. E como
consequência do destino ou castigo do santo, acaba com um sério problema de
saúde. É aí que a fé maranhense aparece. Fé nos santos e nos orixás. Com a
mesma intensidade e respeito. Promessa para o boi. E ele volta a dançar. A
brincadeira deles é isso mesmo. É misturada com fé e religião. É uma
brincadeira que não tem nada de brincadeira.
Tudo isso
é apresentado no palco. O texto não é autobiográfico. Mas o espetáculo é a
biografia daquele povo. Sofrido. Que encontra a fuga nas brincadeiras. Ele
conseguiu retratar a beleza e a pobreza da ilha em apenas uma hora. A cada
passo pesado da construção eu lembrava do tombamento dos casarões. A cada
movimento leve dos pés, eu lembrava do colorido brilhoso das roupas. Da
alegria. Da dança. E do apito. A cada diálogo eu lembrava da fé maranhense.
O sotaque
não podia se esconder. Quantos “nhs” puxados e quantos diminutivos. Quantos
“pequenos” e “ças criança”. Quantos detalhes. E todos estavam lá. Nas músicas.
Nas danças. Nos movimentos. Nas personagens. Nos diálogos. Na leveza. Na luz. E
no cenário. Ah! o cenário. Esse também encantou. O carrinho de mão que fazia
função de boi e de altar para São Pedro. A pá era “guidon” e as peneiras eram
as rodas da bicicleta. A lanterna que era vela. O “pôster” de São Pedro que era
uma placa de estacionamento. As latas de tinta que eram cama. O capacete que
era chapéu de vaqueiro. As estruturas de madeira que eram lixo e tijolos. O
capacete de solda que era máscara de cazumbá. Todos os elementos cumpriram sua
função.
Promessa
realizada. João fica bom. E paga sua obrigação: dançando o boi no auto da escada de madeira que, iluminada, se transformou na escadaria da Capela de São
Pedro. Com o pandeirão lá no alto, lindo, todo iluminado, brincando de lua cheia.
Lauande
Aires. Esse é o nome do maranhense. Texto, direção, atuação, figurino e
cenografia. Santa Ignorância Companhia de Artes. Eles disseram que não tinham
nada para fazer a peça. Apenas a vontade. O desejo. Queria retratar essa
realidade. 10 meses de preparação. E finalmente conseguiu fazer parte do
Festival Palco Giratório, que teve 15 edições anteriores, e aquela era a
segunda vez que uma companhia de teatro maranhense se apresentava.
Nenhum comentário:
Postar um comentário