domingo, 25 de agosto de 2013

"Vem pra rua!"

O esperado sábado chegou. Deixo de ir à praia (ela mesma, que tanto faz falta) e almoçar com uma amiga na casa nova dela para poder assistir ao show de um artista pernambucano. Na rua. Um projeto chamado "Cultura na Rua", que visa, pelo o que entendi, trazer atrações musicais para os espaços públicos. Trazer o pessoal pra rua. 13:00. 

Questionei, comigo mesma, esse horário. 13:00? Tentei comparar com Fortaleza e pensar se lá projetos desse tipo começariam neste horário. Acho que não. Lá é sempre à noite. Já escutei falar que os Curitibanos não aderem projetos assim. Que não vão às ruas. É de se entender. Tá sempre chovendo e/ou muito frio. É tanto que os bares, por exemplos, são lugares fechados. Dificilmente se encontra cadeiras nas calçadas (no Largo da Ordem é o único lugar que vi até agora).  Mas também, com esse sempre frio e chuva. No entanto, eu não afirmaria que eles não frequentam os espaços públicos. Pelo menos, se eu for tirar pelas manifestações de junho, que, debaixo de um frio e chuva desgraceira, estavam lá, em bom número, falando/cantando "ei, piá, queremos um país tesão!". Curitiba na rua. Também manifestando.

Faço o trajeto até a Boca Maldita (lugar do show) a pé. Ao chegar na Praça Santos Andrade, a primeira ocupação de rua. "Dia de Mobilização pelos Direitos da Mulher". Um evento, como o próprio nome já diz, com o objetivo de ressaltar os direitos das mulheres. Vários "stands" falando disso. Englobando os mais diversos aspectos. Apesar de ter achado um evento interessante, sempre me incomoda o fato da gente ter que constantemente "lembrar" dos  direitos das "pessoas". Não queria que fosse preciso falar disso a todo instante. 

Após a Santos Andrade, chego no rua XV de Novembro. Também conhecida como Rua das Flores. Primeira grande via pública brasileira exclusiva de pedestres. A XV é uma "rua" linda. Desde a primeira vez que estive em Curitiba, ela foi um dos encantamentos. Totalmente ocupada de pessoas, prédios históricos belíssimos e canteiros de flores. Em toda sua extensão, as mais diversas artes: música, desenhos, palhaços. Pessoas. A rua ocupada de artistas. No dia do artista.  Eram muitos estímulos e já era 13:00. Já estava atrasada pro show (existe uma pontualidade impressionante!), mas não conseguia passar rápido por tudo. O olhar curioso estava a devorar aquilo que ia passando por mim. Por vezes, parava, mas logo lembrava: estava atrasada pro show. 

Chego na Boca Maldita (no final do calçadão da XV). O show já tinha começado. Vou lá pra freeente do palco (não era difícil, a quantidade de pessoas era bem pequena). De novo, o olhar curioso devorava tudo. Queria prestar atenção no show, nas pessoas, no lugar. Muitos estímulos. Siba, o artista pernambucano, se garantiu durante toda apresentação, assim como sua banda. Apesar da quantidade pequena de pessoas, ele conseguiu interagir muito bem com os que ali estavam. E quem eram esses? Homens barbados, por vezes, de cabelos grandes, mulheres com tatuagens e cachos, crianças atentamente na "cacunda" dos pais prestando atenção em tudo. Moradores de ruas, bebos, também fazendo a festa. Pessoas que passavam e ficavam curiosas paravam pra assistir. Uma vez, algum dos meninos do Luxo da Aldeia comentou no facebook sobre essa mistura. E de como gosta dessa mistura. Acho que é exatamente disso que eu mais gosto nos eventos ocorridos na rua. A possibilidade de "misturar". Tudo junto e misturado.


Acaba o show e um pequeno intervalo para a próxima banda, Trombone de Frutas. Vamos a procura de cerveja enquanto esperamos. Aqui, um ponto a destacar: não existiam vendedores ambulantes. Isso, isso. Os moços com isopor vendendo cerveja. "Óia a cerveja, três real". Como assim? Evento de rua e não existe vendedores ambulantes? Poisé, o que acontece é que nunca vi deles por aqui. Talvez exista uma lei municipal para isso. Não sei. Mas que é diferente, é.  

Trombone de frutas, e um monte de fruta no palco. Melancia, uva, banana. Roupas coloridas. Engraçado que, dias antes, tinha visto um clipe da banda. No mesmo dia, fui pra um bar, e tinha uma pessoa com uma camisa típica do "Trombone de Frutas". Falo: "Eaí, Trombone de Frutas." O cara se acaba de rir e diz que conhece a banda, e que a camisa dele fazia mesmo o estilo do grupo musical. Voltando a apresentação, ela foi, no mínimo, muito divertida. Inglês, espanhol e português. Tudo misturado! (olha a mistura de novo!). E a interação com o público, excelente. (sim, eu amo a interação artista - público).



Segundo tempo. Vejo, por um "amigo", que vai rolar uma festa "junina" no Largo, na praça, na rua. Após o show, nos encaminhamos para lá. O lugar tava toooodo decorado. Bandeirinhas de São João, bois para vestir, mesa de comidas. A coisa mais linda e cuidadosa! E música, música de "Festa Agostiana". Forró. Triângulo e Zabumba. Eu não tinha ideia, até aquele momento, como eu estava com saudade disso (apesar de já ter ido pra um forró aqui, aquele momento de São João, era totalmente diferente). Não foram poucas vezes que os meus olhos ficaram cheios de lágrimas, encantada de estar naquele lugar. Tratei de amarrar meu cabelo com duas "chuquinhas" e caí na dança. Na quadrilha. Na alegria.




E, diante de tudo, eu só consigo pensar: Vem pra rua!

Escrito por:  Amália Beatriz. Cearense de genética e coração, psicóloga de profissão e paixão. Possuo a espontaneidade e alegria como regentes da vida. Vontade constante de aprender, descobrir, encantar e desencantar. Moradora de Curitiba desde fevereiro de 2013. 



sexta-feira, 23 de agosto de 2013

o miolo da estória

Conheci as músicas de boi antes mesmo de saber o que era a brincadeira do bumba boi. Soube das lendas da ilha, antes mesmo de pisar em São Luís. Me encantei quando vi pela primeira vez um maracá com suas fitas coloridas, tocando os versos de “folia de príncipe” e “pedra de responsa” no teatro José de Alencar. Acho que eu tinha uns 11 anos quando fui pela primeira vez a um show do Chico César. Depois conheci o maranhense José de Ribamar, vulgo Zeca Baleiro, que canta as lendas e brincadeiras do maranhão, algumas vezes disfarçadas de rock ou de brega, como a “Serpente” e “Semba”, mas que não passam de toadas de boi, tambor ou mina.

Eu só percebi tudo isso depois que “fui pra ilha maravilha”. Descobri que tudo que era cantado nas “minhas músicas” era de verdade. As lendas e brincadeiras (que são muitas) fazem parte daquela cidade velha e daquele povo. Eles amam aquilo. Mesmo não tendo nada. Apenas com a fé nos santos e nos orixás. Fé. Eles tem muita. E talvez precise. Porque o descaso é grande demais. Sempre penso que poderia ser uma Amsterdam, mas é São Luís.

E foi com esse meu encanto pelas brincadeiras que quis ver aquele espetáculo: “o miolo da estória”. O resumo na programação do Festival Palco Giratório dizia que “a estória apresenta a vida e os sonhos de João Miolo, operário da construção civil e brincante de bumba meu boi”. Isso foi o suficiente pra me fazer sair de casa.

Ao entrar no teatro, fomos recebidos ao som de um boi. Era boi da Maioba. O coração já bateu mais forte. Sentei no meu lugarzinho de sempre. No patamar mais alto da arquibancada para poder olhar tudo. Observei o cenário. Vários marcacás no chão. Uma escada de madeira. Um carrinho de mão. Estruturas de madeira. Uma pá. Algumas latas de tinta. Tudo isso no chão, em cima de uma lona circular. E lá no fundo, pendurado, como quem não tem a intenção de aparecer, o pandeirão.

Black out e começa. Vestido como pedreiro, de capacete e colete, ele inicia com versos de literatura de cordel. Esse primeiro personagem era um tipo de narrador da história. A cada black out e a cada “troca de figurino”, o narrador sai e entra João Miolo. Que contava sua história e dialogava com os personagens como quem conversa com a plateia. Um brincante de bumba boi que trabalha na construção civil. Pobre. Como grande parte do povo maranhense. Estado rico de gente pobre. Mas a pobreza não é o foco. Na verdade ela é retratada de uma forma engraçada. O foco é o amor pelo boi. A fé na brincadeira. E a paixão pelos santos. São Pedro e São João.

A história se desenrola. De dia pedreiro e a noite servente do boi. Sua real profissão. Quantas histórias existem nos terreiros. Quantas histórias existem na construção.  Quantas histórias são as mesmas, mas só olhamos para aquelas que achamos virtuosas. Pensei na fala do pequeno príncipe, quando ele observa a forma na qual apresentamos as pessoas: pelo que elas fazem, e não pelo que elas são. Lembrei de quantos Miolos já conheci. Dos capoeiristas-porteiros. Do dj-historiador. Do surfista-arquiteto e dos músicos-arquitetos (que não é difícil). Do mestre de tambor-agricultor. Do baterista-mestre de obras. E de tantos outros que não conheci.

E em meio a diálogos, narrativas em cordel, músicas e texto, o mote da história surge. João quer sair de baixo do boi para pegar o maracá e cantar suas toadas. Miolo quer colocar seu pensamento em forma versos, e não em forma de passos. Mas seu mestre não deixa. Diz que sua vocação está nos pés. Que aquele boi não seria nada se não tivesse o João, para manipulá-lo com a mesma leveza que fazia ali. Naquele momento. Com o pesado carrinho de mão.

Arrasado com tudo aquilo ele se desespera. Resolve sair da brincadeira. E como consequência do destino ou castigo do santo, acaba com um sério problema de saúde. É aí que a fé maranhense aparece. Fé nos santos e nos orixás. Com a mesma intensidade e respeito. Promessa para o boi. E ele volta a dançar. A brincadeira deles é isso mesmo. É misturada com fé e religião. É uma brincadeira que não tem nada de brincadeira.

Tudo isso é apresentado no palco. O texto não é autobiográfico. Mas o espetáculo é a biografia daquele povo. Sofrido. Que encontra a fuga nas brincadeiras. Ele conseguiu retratar a beleza e a pobreza da ilha em apenas uma hora. A cada passo pesado da construção eu lembrava do tombamento dos casarões. A cada movimento leve dos pés, eu lembrava do colorido brilhoso das roupas. Da alegria. Da dança. E do apito. A cada diálogo eu lembrava da fé maranhense.

O sotaque não podia se esconder. Quantos “nhs” puxados e quantos diminutivos. Quantos “pequenos” e “ças criança”. Quantos detalhes. E todos estavam lá. Nas músicas. Nas danças. Nos movimentos. Nas personagens. Nos diálogos. Na leveza. Na luz. E no cenário. Ah! o cenário. Esse também encantou. O carrinho de mão que fazia função de boi e de altar para São Pedro. A pá era “guidon” e as peneiras eram as rodas da bicicleta. A lanterna que era vela. O “pôster” de São Pedro que era uma placa de estacionamento. As latas de tinta que eram cama. O capacete que era chapéu de vaqueiro. As estruturas de madeira que eram lixo e tijolos. O capacete de solda que era máscara de cazumbá. Todos os elementos cumpriram sua função.

Promessa realizada. João fica bom. E paga sua obrigação: dançando o boi no auto da escada de madeira que, iluminada, se transformou na escadaria da Capela de São Pedro. Com o pandeirão lá no alto, lindo, todo iluminado, brincando de lua cheia.

Lauande Aires. Esse é o nome do maranhense. Texto, direção, atuação, figurino e cenografia. Santa Ignorância Companhia de Artes. Eles disseram que não tinham nada para fazer a peça. Apenas a vontade. O desejo. Queria retratar essa realidade. 10 meses de preparação. E finalmente conseguiu fazer parte do Festival Palco Giratório, que teve 15 edições anteriores, e aquela era a segunda vez que uma companhia de teatro maranhense se apresentava. 

terça-feira, 20 de agosto de 2013

nova coleção

Moro no centro de Curitiba. Quase no bairro Rebouças. Mas na correspondência diz "Centro". Perto daqui tem muitos shoppings. Acho que uns cinco. Já fui a todos. Apesar de detestar shoppings. Na verdade, logo que cheguei por aqui, era o meu lugar favorito. Por ser igual aos meus. Por ser quente. Por ser o “não lugar” que acaba sendo o lugar de todo mundo. O lugar que podemos nos sentir menos só (apenas pela quantidade de pessoas ao nosso redor).

O mais próximo da minha casa é o Shopping Estação. Um shopping mais popular. Fazendo a comparação cearense, seria o “North Shopping”, sem seus labirintos. Ou o “Center Um”, com uma dimensão bem maior. Esse shopping foi construído na antiga estação ferroviária da cidade. Hoje, além de shopping, o espaço abriga o museu ferroviário. Logico. Museu este pequenino perante a dimensão do shopping, que conta um pouco da história da cidade e daquela antiga estação. Suponho que seja esse o conteúdo da exposição, pois ainda não visitei.

Por ser apenas a dois quarteirões da minha humilde residência, significa que vou sempre por ali. Para ir ao supermercado, passo em frente. Para ir ao banco. Pra comer alguma coisa diferente. Para ir ao Cinema ou à faculdade. Isso. Sempre passo por dentro desse shopping para ir à faculdade. Construíram o shopping em 2 ou 3 longos quarteirões. Acho que com a intenção de parecermos está dentro e fora dele. Uma parte da praça de alimentação é realmente semelhante a uma rua/praça. Restaurantes e uma “longa calçada” com muitos bancos. Tudo coberto com material translucido que deixa adentrar a raríssima luz do sol. Sempre tem meia dúzia de casais apaixonados. Grupos de amigos conversando. Mães com seus filhotes nos carrinhos. 

Em todas essas minhas idas ao tal shopping estação passo pela Renner. Não pra comprar. Mas apenas olhar. Olho a vitrine. Vejo todos aqueles casacos lindos. Quase sempre entro. Só para olhar as araras. Conferir os preços. Mas acho tudo muito caro. Passou de 50 reais, devolvo a peça pro seu devido lugar. Principalmente agora, que não tenho mais meu salário querido pra me fazer companhia. As vezes olho toda a sessão feminina. Fico me imaginando comprando aquelas roupas de frio. Me imaginando no novo visual mesmo sem saber me vestir para frio. Sempre tenho o mesmo pensamento: preciso de roupas para aguentar o frio, mas sem ficar ridícula.

Metade de agosto. E de fato esperando setembro chegar. Mês mais frio do pavoroso inverno curitibano. Céu cinza. Vento frio lá fora. Nem sinal do meu querido sol. Passei a usar o aquecedor quase o dia inteiro. Inclusive pra dormir. Para sair de casa, uso minhas roupas de anos atrás. Muitas blusas de manga que não esquentam e casacos emprestados.

Um final de semana sem aula. A saudade aumentando cada vez mais. Enquanto o sentido da mudança diminui proporcionalmente. Sexta feira. Uma tristeza sem fim. Pra espantar tudo isso, resolvi ir ao shopping. Ir no salão. Almoçar. E, finalmente, comprar meu "look" de inverno. Me "arrumei" e fui. Primeira parada: Renner. Olhei para a vitrine. Procurei pelos casacos. Pelos moletons. Calças. Botas. Nada! Primavera-verão. A nova coleção acabara de chegar. 

A quem interessar possa (organizado "a la" trabalhos de arquitetura):

O SHOPPING ESTAÇÃO
O Shopping Estação foi inaugurado em 1997. Localizado anexo à antiga estação ferroviária de Curitiba, no bairro Rebouças, o Shopping Estação teve sua arquitetura projetada para manter a concepção original da antiga construção, integrando o antigo e o novo com perfeição, valorizando a iluminação natural e os jardins internos.

O MUSEU
O Museu Ferroviário de Curitiba abriga mobiliários e peças que colaboram para o resgate histórico da memória ferroviária no Paraná, que se iniciou em 1885 com a inauguração do trecho entre Paranaguá e Curitiba. Inaugurado em 1982, o espaço possui a arquitetura da antiga Estação Ferroviária de Curitiba.

Horário de funcionamento do Museu: 
Terça a sábado: 10h às 18h
Domingo: 11h às 19h
Segunda: não abre

PS.: Texto retirado do site do shopping estação, que provavelmente deve ter sido feito por um arquiteto, diante das mesmas justificativas urbanísticas e arquitetônicas para qualquer novo empreendimento que envolva: antigo x novo, patrimônio, urbanístico, empreendimento comercial.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

6 meses. Meio Ano.

6 meses... Tem uma semana que isso tá martelando na minha cabeça:

6 meses em Curitiba.

6 meses sem encontrar a família, 6 meses sem encontrar a maioria dos amigos, 6 meses sem roda de violão, 6 meses sem ir pro Vila Camaleão, 6 meses sem happy hour (na Europa ou na Africa), 6 meses sem soar pra caramba, 6 meses sem dirigir, 6 meses sem escutar buzinas de carros enlouquecidos no trânsito (é incrível, os carros aqui dificilmente buzinam), 6 meses sem Praia do Futuro, caranguejo e 'Açaí da Jú', 6 meses sem sushi no America Beer ou Pão de Açucar, o lugar de gente feliz, 6 meses sem os latidos do Dico (meu cachorro. Que saudade!).
6 meses sem. Sem um monte de coisa.


6 meses que eu aprendi um monte de coisa.

Aprendi a respeitar as diferenças (ainda mais).

Que carro é um supérfluo que eu julgava tão necessário. Com isso, aprendi o prazer de andar a pé. Eu amo a possibilidade de ir a pé pros lugares. Seja o supermercado, o Mercado Municipal, a XV ou Largo da Ordem. A referência 4km teve grande mudança. Antes, era um absurdo. Hoje, é "mó limpeza". Com a ajuda do magnifico google maps orientando as direções, tudo fica melhor!


Estou, constantemente, aprendendo a cozinhar. Saí de Fortaleza sem saber fazer nem arroz. Hoje faço arroz, feijão, macarrão, carne, frango... E ainda tenho a sorte de, por vezes, ficar bom que só. Aprendi essas coisas domésticas: passar aspirador, pano, lavar roupa.(pode parecer uma besteira, mas pra mim é muito significativo.) E tenho um grande de prazer de ver tudo arrumado. Na última semana, aprendi a abrir lata de milho, com ajuda do Jardel (que mora comigo). Por sinal, ô trem díficil! Tem que encaixar direito o abridor, fazer determinado movimento.  Uma das aprendizagens mais difíceis, sem dúvidas.

Aprendi que, já que não tenho praia, eu vou ao parque. Dessa forma, fiz do Jardim Botânico minha praia. É lá que pratico tênis, faço malabares, leio, e, atualmente, tento aprender a andar de skate.


Aprendi, na pele, que você ser legal com outros, só faz atrair coisas boas de volta. É quase que um pensamento egoísta, mas é verdade: se eu sou legal com ele, ele vai ser legal comigo e vai ser muito melhor. Tem dado super certo.


Aprendi que você tem que se despir de muitas coisas pra poder fazer de uma cidade, sua nova morada. Despir mesmo. Até pras mais "sem-vergonhas", como eu, não é um processo nada fácil. Tem que ser ainda mais cara de pau (no melhor sentido da palavra).



Aprendi a valorizar a leitura. Seja ela em qualquer lugar. Em casa, no ponto de ônibus, no ônibus ou intervalo das aulas. Quando penso nisso, lembro dos meus primeiros dias de aula da psicologia que conversando com o grupo de amigas, comentei que odiava ler. Hoje dia, não vivo sem.



Aprendi e estou aprendendo constantemente no mestrado, razão única que me fez "trocar" a linda Fortaleza, pela encantadora Curitiba. Além do contato com os maiores doutores na área de Psicologia Forense, descubro coisas novas em cada aula, em cada papo, em cada leitura. Ô Ciência pra eu amar. 


Tenho aprendido a me vestir no frio. Outro dia, passei mil anos escolhendo a roupa pra ir em um samba. Colocava roupa demais? Roupa de menos? Roupa de menos e uma roupa de mais em cima?

E, aprendi, principalmente, a valorizar as pequenas coisas da vida. Essa afirmação pode ser bem batida, quase algo que você poderia se encontrar em um livro de autoajuda (eu odeio autoajuda), mas que tem feito todo sentido pra mim. Eu não preciso de muita pra coisa ser feliz não. Um dia de sol em Curitiba, por exemplo, já garante uma extrema alegria. Como diria o Cristovão Tezza, é dificil ter um dia sol, sem nuvens, mas, quando tem, é a coisa mais linda. Dessa forma, vou sendo feliz a cada nova pessoa legal que conheço, a cada novo encantamento, ao ir em lugares que nunca fui (aquela velha e boa sensação de que sempre estou viajando), a cada novo autor, a cada nova peça de teatro, a cervejas brindadas. 



6 meses em Curitiba. 
E a certeza de que estou, exatamente, onde eu queria estar.

Escrito por: Amália Beatriz. Cearense de genética e coração, psicóloga de profissão e paixão. Possuo a espontaneidade e alegria como regentes da vida. Vontade constante de aprender, descobrir, encantar e desencantar. Moradora de Curitiba desde fevereiro de 2013




segunda-feira, 12 de agosto de 2013

curitibanos

Desde que vim para cá, a coisa que mais escutei foi: “você não vai gostar de Curitiba. Não tem nada a ver com você.” “Lá é muito frio, e as pessoas, nem se fala!”. Eu sabia que essa era uma opinião daquelas pessoas, e que em breve eu formaria a minha. Também sabia que aqui era frio. Mas quando cheguei, percebi que era mais frio do que eu podia imaginar. A cidade era um lugar desconhecido que precisava ser desbravado. E as pessoas? Me falaram tanto que elas eram estranhas, que resolvi ficar mais na minha. Mas o primeiro choque veio. Um belo dia estava eu no elevador. Entrou um rapaz. Eu, bem educada que sou: “bom dia!”. Silêncio. ...... Silêncio. E o silencio permaneceu até o elevador chegar no destino. Saindo, passei pelo porteiro desejando “bom dia!” e.... mais silêncio. Desisti de dá bom dia para os porteiros. Eles sempre ignoram. Esquisito demais.

Passando alguns dias, comecei a conhecer curitibanos. Alguns deles me surpreenderam, não posso mentir. E me alertaram de algumas coisas. Curitibanos vivem em bolhas. Eles não deixam se aproximar muito. A começar do cumprimento. Por aqui não são dois beijinhos. É apenas um. O aperto de mão é quase a 1 metro de distância. Muitos deles reconhecem que essa “bolha” existe e, o pior de tudo, eles adoram a tal bolha. Ouvi dizer que tudo isso era por causa do clima. Como é muito frio, cada um vive na sua, sem dá muita bola pra ninguém. Concordo (e percebi na pele) que o frio torna as pessoas frias. Fato. Mas acho que a educação deveria vir em primeiro lugar. Um dia fomos em um bar, dentro do shopping, e uma amiga curitibana falou “afe, aqui só tem curitibano!”. Como assim? Quer coisa mais esquisita que isso?

Descobri que eles também são machistas. Os homens. Talvez mais que os cearenses. E todos tem namoradas. Todos os seres dessa cidade estão em pares. Gordinhos, feinhos, magrinhos, bonitos, bonitões, nerds e esquisitos. Todos tem namorada. E a mesma regra vale para as moças, claro! Eu queria registrar todos os casais que já vi. Dos mais bonitos aos mais esquisitos. Em relação as moças, percebi que elas usam o cabelo com um corte todo especial. De todos os jeitos. E de todas as cores também. Laranja, claro e escuro. Vermelho. Vermelho fogo. Amarelo. Loiro. Rosa. Verde. Azul. Todas essas cores já foram vistas em cabelos curitibanos. E se maquiam bastante. Principalmente o olho. Muito rímel. Inclusive tenho minha teoria sobre toda essa tinta: como ninguém mostra sequer o ombro, devido a quantidade de roupas, elas resolvem carregar na maquiagem. Eu achei isso ótimo.

Beleza? Não acho que eles são um “povo bonito” como já percebi em outros lugares. São pessoas normais. Logico que existem pessoas bonitas. E lindas. Principalmente meus amigos. Mas não é um povo que passou dez vezes na fila da beleza. Ouvi dizer também que eles são tímidos. Mas não concordo. Acho que falta só um pouquinho de vontade de ser agradável mesmo.

Eles também não sentem frio. Isso é incrível. Quantas vezes vi rapazes de bermuda e camisa e meninas de saia? Mini saia, devo ressaltar. Enquanto eu permaneço com minhas 4 blusas + sobretudo. Não consigo entender. Como esses seres não sentem frio? E o pior é que tiram sarro de mim quando me vêem, em um dia de sol, com casaco de inverno. Na semana de “sol intenso” que vivi por aqui, desci com uma mulher no elevador, e ouvi “que calor gostoso esse que tá fazendo né?”. Calor? Eles não sabem o que é calor. O dia mais quente aqui não existe em fortaleza, porque não é o calor que eu conheço. 

Mas aqui não é o fim do mundo não. No meio dessa galera curitibana, com essas qualidades especificas (pra não dizer esquisitas), conheci pessoas que tem características da minha terra. Acolhedoras, sorridentes, engraçadas e de bem com a vida. Que me levam pra casa, me chamam pra sair, me abraçam, tomam cerveja e me fazem dá boas gargalhadas. E que de vez em quando, me chamam de curitibano. Diante de minhas atitudes esquisitas. Para não dizer estranhas, como diriam as más línguas.

ps.: postei esse texto ontem (12.08), mas hoje acabei de ver o suricate, e resolvi postar aqui porque supercabe!


quinta-feira, 8 de agosto de 2013

"Você ainda não pegou o frio de Curitiba". Será?

"Ah, é que você ainda não pegou mesmo o frio de Curitiba". Essa foi uma frase que escutei, insistentemente, durante cinco meses, sem parar. Era verão, eu já sentia o frio pra valer, mas "você ainda não pegou o frio mesmo de Curitiba". Chegou o outono, termômetros chegaram a marcar 10º, o frio era quase insuportável para dormir (ainda bem que as pessoas tiveram pena das cearenses e nos fizerem doações de cobertas), mas, "você ainda não pegou o frio mesmo de Curitiba". Chega o inverno, e com ele uma semana de chuva sem cessar. O frio, nem estava tão insuportável. É verdade o que dizem: o couro acostuma (ainda bem!). 

Durante o mês de julho, começa um "tititi" danado: previsão de neve em Curitiba. Redes sociais, jornais, pessoas em todos os lugares pareciam só falar disso. Era um desejo de neve impressionante. Junto com toda essa movimentação, a temperatura só abaixava. No entanto, ainda insistiam em dizer que eu não tinha vivenciado o frio de Curitiba, porém o discurso havia mudado, pois afirmavam que logo mais presenciaria, já que a previsão para os dias posteriores estava variando entre 0º e 7º, por exemplo.

Finalmente, para alegria geral da nação residente de Curitiba, chega a tão esperada semana mais fria do ano. Os jornais destacaram: há alguns anos os termômetros não marcavam temperaturas tão baixas. E, a cearense aqui, já estava virando quase picolé congelado. Confesso, nunca usei tanta roupa na minha vida, e, mesmo assim, não era suficiente. 

Segunda-feira e o anúncio: previsão real de neve para o dia seguinte. O assunto continua a ser esse. Sem parar, sem parar, sem parar (que nem o chocolate bis). Eu fiquei bem desacreditada que isso poderia acontecer, afinal, neve era demais para as condições climáticas existentes. Os residentes daqui não, eles desejaram isso com todo o poder dos seus casacos.

Chega à terça-feira. Meu telefone toca às 8:00 da manhã (no frio, acreditem, isso é muito cedo. Sua cama tem um ímã que impossibilita a saída dela). Era a Larissa. "Maimaila, acho que não tô doida não. Tá nevando, tá nevando. (...). O povo tá no meio da rua falando isso!". ‘Droga!’, penso cá com meus botões, ‘tenho que ir ver, né?’. Levanto da cama, após brigar para retirada do ímã, abro a janela (devia tá marcando 1º) e coloca minha mãozinha pra fora. Não, a neve não chegou no Cristo Rei. Ou, talvez nem tenha chegado a Curitiba. A Larissa é doida, deve tá vendo coisas. Vou pro amigo facebook e tenho a contestação: poisé, parece que de fato nevou por aqui. E aí, pelo o andar do texto, vocês já devem ter percebido qual foi o assunto do dia, né? "A neve de Curitiba". Parecia que o Coritiba (o time) tinha era ganho um campeonato, de tão feliz que as pessoas estavam por ter nevado. Eu não entendia como podia uma felicidade diante de um frio tão doído, mas tudo bem, eu gosto de ver as pessoas felizes.

Desde que falaram desse frio todo, meu único pensamento é que eu gostaria de presenciar a geada. Comentei isso com alguns. Pois bem, após o "dia da neve", a previsão para a quarta-feira era de geada. O que acontece é que tem que acordar beeeeem cedo (lembram do ímã?) para poder ver, pois depois que o sol bate, ela derrete e acaba. Após pensar bem, decidi que a geada ficaria para o próximo ano e acabei não colocando meu celular pra despertar.

Quarta-feira, 6:50, o telefone toca: "Amália, tá tendo geada. Tô aqui no Jardim Botânico (J.B). Se agasalha bem muito, pois tá marcando -3º, e vem pra cá". Com a força de quem ama coisas novas na vida, levanto, e reforço a quantidade de roupas que eu estava: segunda pele, legging, calça de molleton, meia, bota, duas blusas de lã, sobretudo, cachecol, toca e luvas. Pronto, estou bem protegida pro frio. Logo que saio de casa, a primeira grande beleza: a lua ainda se encontra ali, cheia, linda, também presenciando a geada que está acontecendo. Já abro um sorriso e vou feliz, caminhando, até o J.B. No caminho, toda vida que encontrava alguém, nos olhávamos e abríamos um sorriso de quem entendia o frio que o outro estava passando. Isso aconteceu durante algumas vezes no meio do caminho e, logicamente, adorei. Adorei poder, finalmente, me comunicar com o povo na rua, sem precisar dizer uma palavra. Fora isso, fui brincando de assoprar até chegar lá. Como uma boa matuta que sou, adoro a fumacinha saindo da minha boca. Chegando perto do lugar desejado, o termômetro marca: -2º. Sorrio de novo. Nunca havia estado em temperaturas tão frias. 

Logo ao entrar no J.B., meu olhos começam a lacrimejar. Eu não consigo entender direito o que está acontecendo com meu corpo. Se estou chorando pelo o frio sentido (e é uma reação fisiológica do corpo) ou se estou externalizando a emoção sentida. No final, acho que foram as duas coisas. O que sei é que era tudo MUITO bonito. O gramado todo branco, a lua ainda assistindo tudo, vários fotógrafos registrando aquele momento (assim como eu e meu amigo), as crianças da minha idade, brincando de descer o morro que mudou sua cor de verde para branco. As poças de água que viraram vidros de gelo, como se fossem os cubos de água que se transformam em gelo após um tempo no congelador. A ponte também coberta de gelo. Os bancos cobertos de gelo. Ao redor das árvores, sem gelo, pois existe alguma explicação científica, que eu não vou saber falar, que faz com que debaixo delas não fique com "geada". 

A beleza de tudo era tão grande, que tinha momentos que eu esquecia que "tava negativo", e que estava quase congelando por dentro, principalmente meus dedos dos pés, que, nessa altura do campeonato, eu nem sentia mais. Saí de lá super satisfeita e morrendo de frio. Cheguei em casa, tomei algo bem quente e voltei pro meu ímã. 

Desde então, a frase mudou: "Nossa, você pegou mesmo o frio de Curitiba". 

Escrito por: Amália Beatriz. Cearense de genética e coração, psicóloga de profissão e paixão. Possuo a espontaneidade e alegria como regentes da vida. Vontade constante de aprender, descobrir, encantar e desencantar. Moradora de Curitiba desde fevereiro de 2013. E, hoje, dia 08.08.13, encontro extremamente indignada com a situação ditatorial vivenciada e presenciada em Fortaleza.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

pra diminuir a saudade

Nunca entendi muito bem porque, mesmo depois de muito tempo morando fora de casa, uma pessoa consegue derramar lágrimas na hora da despedida. Depois de 3 meses morando longe (acho que nem isso tudo), e já tendo voltado 2 vezes pra cidade alencarina, consigo entender e sentir exatamente o efeito da tristeza, traduzido por uma enxurrada de lágrimas. Como sou exagerada e sentimental, a uma semana da partida, fico com um banzo terrível e as velhas e companheiras lagrimas não param de chegar.

Durante a fase de banzo, além da tristeza profunda, existe outra questão extremamente tensa e sentimental: arrumar a mala. Essa modalidade requer prática e paciência, habilidades que ainda não possuo. Antes da arrumação, sempre separo todas as roupas e todos os objetos extremamente necessários que devem adentrar aquele espaço reduzido. Método nada saudável, pois toda vez que minha querida mãe entra no quarto, ela se apavora com a bagunça, e, logicamente, inicia-se uma confusão. “menina, arruma logo essa mala. Aproveita e arruma teu quarto, que é uma eterna bagunça”. As vezes, pra me deixar mais nervosa, ela completa: “não vai caber não, acho melhor você levar uma outra sacola”. Detesto sacolas. Viajar entupida de sacolas é sinônimo de retirante. Me imagino em várias situações durante o longo trajeto Curitiba-Fortaleza. Se as sacolas caírem no chão e eu não tiver como pegá-las? Ou se o vôo atrasar e eu tiver que sair correndo com aquele monte de sacolas? E a ida ao banheiro? nem se fala! Odeio viajar carregada. O ideal pra mim seria uma mala que coubesse tudo. Ficando de fora apenas o que será carregado na bolsa pessoal. Enfim. No sonho de viajar sem sacolas, as minhas roupas separadas vão ficando por ali. Durante uns 3 dias. Uma semana. E até mais. Como se num passe de mágicas, tudo se resolvesse.

Na véspera do fatídico momento, tomo coragem e parto para a mala. Tudo começa tão organizado, que chego a ter certeza que daquela vez vai caber. Na metade percebo que mais uma vez não conseguirei. E quando ainda restam mais 23kg, fora os que já estão amontoados dentro da mala, tenho a consciência de que meu pensamento inicial foi mero engano. No minuto final precisamos pesar, literalmente e sentimentalmente, aquilo que é mais importante. Fui tirando aos poucos o que eu não iria precisar para o frio curitibano: uma bota de salto alto, dois cachecóis de lã, um casaco de couro, dois nichos para o meu novo quarto, 3 livros, uma xilogravura com a temática do tambor de crioula, minha calculadora e um pacote de Vitamilho. Acabei elegendo o que realmente importava: 2kg de goma fresca, meu agbê e meu travesseiro. Apesar de ter aversão a sacolas, viajei carregada mais uma vez. Mas feliz. Por ter certeza de que a saudade diminuiria a cada manhã, na hora do mergulho da minha tapioca no café com leite.


.escrito por Virgínia.