sexta-feira, 13 de setembro de 2013

amália


Muitas pessoas já me falaram do meu sorriso. Sorrisão. Que podia fazer propaganda da “colgate”. Pois bem. Conheci uma pessoa que tem um SORRISÃO. Maior que o meu. E radiante. Radiante por existir. Por aproveitar a vida do jeito que ela é. De ver tudo com os olhos da alegria. Nos conhecemos a pouco. Mas já se faz necessária na minha vida. Ela é uma pessoa colorida que tornou meus dias cinzentos e frios mais felizes. Ela que tem uma garra de viver. E um brilho no olhar. Ela mesma. Essa menina que hoje faz 26 aninhos. Te desejo muitos motivos para você continuar com essa felicidade. Parabéns!


“Tirei meu chapéu de palha, e meu paletó de linho. Convidei maria Amália, pra sambar no chuvisquinho”

domingo, 8 de setembro de 2013

quem fica

De repente decidiu ir. Em uma semana estava aqui e na semana seguinte não estava mais. Não avisou a muita gente, só aos mais próximos. Tomar esse tipo de decisão não é fácil, deixar “uma ruma” de coisa pra trás e abraçar o novo, não é para todo mundo. Louvável. Mas como é pra quem fica?

De repente a casa ficou mais vazia, o quarto com as fotos na parede já não tem a presença constante daquela menina morena dos cabelos cacheados. Uma das vozes não está mais lá. Foi falar alto em Curitiba.

É triste, dá saudade, a gente sente uma falta danada, mas sabe que aquela ausência vai servir de experiência pra pessoa que resolveu ir, mesmo que o coração de quem ficou aqui esteja apertado.

O bom disso tudo é poder sentir como as coisas pequenas fazem falta. A voz rouca, o cheiro do cabelo, as fofocas madrugada a dentro, os resmungos de quem precisa acordar cedo pra trabalhar, as brincadeiras com a sobrinha que teima em repetir a frase: “Mãe tô com saudade da tia Vivi!” e mais uma ruma de coisinha que vai juntando e no final vira um “coisão” que a gente dá esse nome de saudade.

Ah, a companhia! Um dia desses fui só num evento chamado Ceará das Rabecas, que todo ano vamos juntas. Cheguei, sentei e me vi só...mas como assim só? Cadê minha parceira de eventos culturais? Ah, ela tá em Curitiba. É claro que depois encontrei pessoas conhecidas que me acolheram, mas...não é a mesma coisa. Como faz falta a companheira.

Tem uma coisa que deixa essa morena com raiva, o fato de eu ter “herdado” os amigos dela. Mulher, tu acha que minha presença substitui a tua? Óbvio que não! Mas isso é fato, quem fica “toma” os amigos de quem foi...assumo essa responsabilidade.

Mas ruim mesmo é a falta que quem foi faz em quem fica. Um vazio. Nem com a voz ao telefone é preenchido, nem com as conversas no facebook, ou no Skype. A presença faz falta. O fato é que nós, humanos (principalmente os seres praianos), precisamos da presença, calor, carne, toque, abraço, beijo...isso faz falta, ah se faz.

Escutar as frases “Se a nêga tivesse aqui ela ia gostar disso...” “Olha é a cara da tua irmã...” “Tô com tanta saudade daquela nêga...em setembro vou visitar ela...” É bom porque faz a gente lembrar da pessoa em sua essência, o que ela faz que te agrada ou que te desagrada, e te faz refletir o quanto aquela pessoa é importante para quem fica, o quanto é importante para a rotina daquela casa e daquelas pessoas que estão com saudade.

Saudade. Dizem que essa tal palavra só existe no português. E têm orgulho disso. Eu não. Tudo bem que acho a escrita dela linda. Mas o que ela significa. Tenho pavor. Sempre tive. Nunca consegui lidar com esse sentimento. Sentimento que sempre doeu e me fez chorar. Saudade das férias. De Tibau. Dos meus primos amados que moravam longe. Dos amores. Das paixões. Que sempre foram distantes. Do primeiro “namorado” ao último. Sem exceção. Dos tios que moravam e moram longe. Saudade da infância. Do colo das minhas avós. E do meu avô que se foi cedo. Saudade dos lugares. Dos cheiros. E das músicas. As despedidas das férias sempre eram regadas a lágrimas. E os primos já nem se importavam tanto. Porque sempre era e ainda é assim.

A saudade agora se transformou. Ela não dói mais. Não sinto saudade de quem ficou. Sinto falta. Sentir saudade dói. Sentir falta não. Sinto falta de assistir televisão com minha mãe. De ficar até tarde conversando com ela. Das risadas. De pedir pra ela dormir comigo. Porque minha cama é melhor que a dela.

Sinto falta de ouvir a voz da Luiza. Porque ela tá crescendo. Mas a voz é a maior característica que ela ainda é um bebê pra mim. Sinto falta de ver ela dançar na frente da televisão. De pedir um copo de água e ela dizer que não vai buscar. Das risadas. E de tomar banho junto fazendo propaganda de xampu.

Sinto falta de reclamar que a Natália demora a se arrumar pra sair. Reclamar que ela coloca tudo em cima da minha cama. Que na verdade é dela. De fofocar enquanto tomamos banho. Das gargalhadas enquanto conversamos “miolo de pote”. De desabafar e ouvir a resposta “ô besteira”. Das marmotas. Falta do café da manhã. De conversar horas com a Regina. De beijar o Duc. E reclamar dele também.

Sinto falta do meu pai. Falta dos poucos almoços do domingo. Falta do abraço dele. Mas essa relação é um capítulo à parte. Porque percebemos que nos falamos mais aqui, que quando estou lá. Eu estou ligando mais. Vendo mais. Tudo bem que é por Skype. Mas continuo a ligar pra pedir ajuda. Com o computador. Com a torneira que quebrou. Com o aquecedor que está esquentando demais. Com a televisão que não funciona. Com tudo que eu preciso. 

Sinto falta do calor da fogueira. Do cheiro da saia. Dos sorrisos na roda. E das gargalhadas nas emboladas. Falta da hora do café no escritório. Porque eu sempre reclamava de descer aquelas escadas. Falta de conversar e gargalhar quando saímos. E depois perceber que todos os garçons estavam “sentados” na nossa conversa. Sinto falta de todos os meus amigos. Sem exceção. Todos.

Sinto falta e não dói. Porque tenho certeza que o amor não diminui. Que sempre que eu quiser eles estarão lá. E eu estarei aqui. Como se estivéssemos no mesmo lugar. Mesmo existindo a distância.

E o mais importante de tudo, é que tem volta. Quer dizer, até agora tem. E se não tiver volta, ainda vão existir férias, feriados e finais de semana.

PS.: não tenho ódio de você está com meus amigos. Tenho ódio porque não estou junto!

Um beijo de quem fica pra quem foi. E de quem foi pra quem fica.


Texto escrito por Natália Escóssia. E Virgínia Pitta. O sobrenome é diferente, mas somos irmãs. Só que um lado puxou o pai e o outro puxou a mãe.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

cidade

Outro dia me perguntaram sobre a minha visão da cidade de Curitiba. É assim que eles se referem a capital mais fria do Brasil. Quais as diferenças. Semelhanças. Se estou gostando. E sempre me pedem a “visão como arquiteta”. Claro! Acho que esperam que eu fale dos prédios. De suas histórias. Das ruas. Da “acessibilidade”. Sempre indo para a tal teoria. Que por sinal, é muito bem estruturada nas folhas de Jane Jacobs, Kevin Lynch e Jaime Lerner. Mas não gosto de falar muito sobre “a arquitetura”. Acho um papo meio cult-bacaninha que parece não ter fundamento. Porque, na verdade, para falar de uma cidade, ou de sua “arquitetura”, não precisa ter conhecimento teórico. Precisa ter conhecimento de causa. Tem que ser transeunte, un passant, piéton, pedestre, ou como queira chamar.

Para entender os prédios e falar deles, para saber se o tal transporte coletivo “funciona”, tem que viver a cidade. Andar a pé. Errar o caminho. Pegar um prédio, uma rua ou uma esquina para localização. Andar de ônibus. Pedir informação. Errar o caminho. Se comunicar com as pessoas. Se esquivar, as vezes. Precisa olhar pro céu. E olhar ao redor. Precisa saber onde é o centro da cidade. E para onde ela se expandiu. Para depois saber onde se localizam os bairros. E conseguir circular.

É isso que eu tento fazer por aqui. Se não o medo toma de conta e a cidade nos engole. E meus dias tem sido assim. Andar a pé e de ônibus. Olhar. Ver. Observar. Perceber. Me achar. E me Perder. E estou adorando. Tudo bem que morar no centro é uma vida a parte. Tudo que eu faço é perto. Ou muito perto. O ideal seria uma bicicleta. Mas confesso que andar a pé, de madrugada, por alguns 15 quarteirões ou sair à noite e voltar pra casa de ônibus não tem preço. E dizem que o centro de Curitiba é perigoso. Porque não conhecem Fortaleza a noite. De dia. De madrugada. A qualquer horário. O problema vai ser encarar a confusão que está o canteiro de obras cearense. Já devo ter desaprendido a dirigir.

Sempre que surge a discussão sobre andar ou não de ônibus, a percepção que tenho é que nós, brasileiros, achamos que andar de ônibus é coisa do outro mundo. Porque na tal Europa o busão é o maior charme. Mas só lá. Aqui o transporte coletivo nunca funciona. Porque quem fala com essa propriedade não usufrui desse meio de transporte. Raras são as pessoas que conheço que precisam de ônibus em Fortaleza. A começar de mim. Me pergunto o que significa a palavra funcionar. O famoso “tubo curitibano” é um ônibus normal. Só é bem maior. E não tem nada de diferente do outro ônibus. Sim. Aqui tem os tubos e as paradas convencionais. Tudo igual a Fortaleza. Os ônibus que passam no tubo não circulam Curitiba inteira. Então pegar o ônibus comum também é muito necessário. Mas continuam a dizer que aqui funciona. E lá não. Deve ser o clima. Porque é um charme pegar ônibus no frio. Já no sol quente...

Uma coisa que ajuda a andar de ônibus é a inexistência do sol a pino, dos buracos, do engarrafamento e dos assaltos. No curto período de tempo que andei de ônibus na "Fortaleza Bela", sempre chegava nos lugares exausta de calor. Pra não dizer pingando de suor. E sempre escondendo a bolsa. Celular e dinheiro? Muito perigoso dentro ônibus. Por aqui também deve ter roubos. Mas não como em Fortaleza. Eles são tão “civilizados” que tem a voz da mulher do aeroporto dentro do ônibus com a orientação: cuidado com furtos no interior do veículo!

Hoje eu fui na casa de uma amiga. Uma distância que podia ser percorrida pelos meus pés. Mas fui de ônibus. Depois de 4 paradas ou estações: Cristo Rei! Um novo bairro para marcar no meu “google earth”. A primeira impressão já foi a melhor. Tive que subir uma ladeira. E depois de muito forçar minhas perninhas tive uma vista linda de Curitiba. Pude ver os prédios lá no fundo fazendo uma “skyline”. Lindo. Fui andando. Comecei a perceber os prédios. Como são diferentes do meu bairro. E de Fortaleza. Prédios baixinhos. Sem pintura manchada. Nem pichação. E percebi o quanto a "Capital da Alegria" é sufocada por prédios enormes. Sempre precisamos olhar para cima pra ver um prédio na totalidade, porque na altura do observador é impossível. Aqui a cidade é mais aberta. 

Na volta precisei parar na rodoviária. Que é exatamente o meio do caminho entre minha casa e o Cristo Rei. Dentro do ônibus, percebi que nesse trecho existe um viaduto. Na hora pensei que se eu tivesse ido a pé, teria que passar por baixo dele. Tenho verdadeiro pavor de passar a pé por baixo de viadutos. Essas áreas sempre são desertas e não tem nada que nos faça sentir a cidade. Perto da minha casa em Fortaleza tem um viaduto. E lá em baixo tem apenas carros estacionados. Ou moradores de rua. E agora, com as obras, não tem nada. Apenas uma luz na escuridão. A cara do assalto. Lógico que lembrei da discussão teórica e prática que está acontecendo no Cocó. Um viaduto naquela área? Apenas com a finalidade de deixar mais perigoso do que já é.

Curitiba é totalmente diferente da minha terra. Em tudo. Prédios. Pessoas. Clima. Calçadas. Ônibus. Limpeza. Céu. Cor. Memória. Telhados. As vezes melhor e as vezes pior. Por aqui passou um tal de Jaime Lerner. Que tive como referência na faculdade. Ouvi dizer que ele era um político. Com todos os significados que essa palavra possa ter. Que as “melhorias” que fez foi apenas por política. A diferença é que ele fez coisas boas para a cidade, atingindo diretamente quem vive aqui. E com esse caso de política x cidade que existiu, me pergunto porque não fazem isso na minha cidade querida. Não só em relação ao viaduto. Nem as centenas de árvores que cortaram. Nem em relação a ciclovia apagada. Nem ao megalomaníaco aquário (3° maior do mundo). Nem aos novos hospitais construídos que não funcionam. Mas em relação a tudo. A tudo que já foi feito e que vão fazer sem pensar. Sem pensar no outro. Sem pensar na cidade. Sem pensar em quem precisa dela.

domingo, 25 de agosto de 2013

"Vem pra rua!"

O esperado sábado chegou. Deixo de ir à praia (ela mesma, que tanto faz falta) e almoçar com uma amiga na casa nova dela para poder assistir ao show de um artista pernambucano. Na rua. Um projeto chamado "Cultura na Rua", que visa, pelo o que entendi, trazer atrações musicais para os espaços públicos. Trazer o pessoal pra rua. 13:00. 

Questionei, comigo mesma, esse horário. 13:00? Tentei comparar com Fortaleza e pensar se lá projetos desse tipo começariam neste horário. Acho que não. Lá é sempre à noite. Já escutei falar que os Curitibanos não aderem projetos assim. Que não vão às ruas. É de se entender. Tá sempre chovendo e/ou muito frio. É tanto que os bares, por exemplos, são lugares fechados. Dificilmente se encontra cadeiras nas calçadas (no Largo da Ordem é o único lugar que vi até agora).  Mas também, com esse sempre frio e chuva. No entanto, eu não afirmaria que eles não frequentam os espaços públicos. Pelo menos, se eu for tirar pelas manifestações de junho, que, debaixo de um frio e chuva desgraceira, estavam lá, em bom número, falando/cantando "ei, piá, queremos um país tesão!". Curitiba na rua. Também manifestando.

Faço o trajeto até a Boca Maldita (lugar do show) a pé. Ao chegar na Praça Santos Andrade, a primeira ocupação de rua. "Dia de Mobilização pelos Direitos da Mulher". Um evento, como o próprio nome já diz, com o objetivo de ressaltar os direitos das mulheres. Vários "stands" falando disso. Englobando os mais diversos aspectos. Apesar de ter achado um evento interessante, sempre me incomoda o fato da gente ter que constantemente "lembrar" dos  direitos das "pessoas". Não queria que fosse preciso falar disso a todo instante. 

Após a Santos Andrade, chego no rua XV de Novembro. Também conhecida como Rua das Flores. Primeira grande via pública brasileira exclusiva de pedestres. A XV é uma "rua" linda. Desde a primeira vez que estive em Curitiba, ela foi um dos encantamentos. Totalmente ocupada de pessoas, prédios históricos belíssimos e canteiros de flores. Em toda sua extensão, as mais diversas artes: música, desenhos, palhaços. Pessoas. A rua ocupada de artistas. No dia do artista.  Eram muitos estímulos e já era 13:00. Já estava atrasada pro show (existe uma pontualidade impressionante!), mas não conseguia passar rápido por tudo. O olhar curioso estava a devorar aquilo que ia passando por mim. Por vezes, parava, mas logo lembrava: estava atrasada pro show. 

Chego na Boca Maldita (no final do calçadão da XV). O show já tinha começado. Vou lá pra freeente do palco (não era difícil, a quantidade de pessoas era bem pequena). De novo, o olhar curioso devorava tudo. Queria prestar atenção no show, nas pessoas, no lugar. Muitos estímulos. Siba, o artista pernambucano, se garantiu durante toda apresentação, assim como sua banda. Apesar da quantidade pequena de pessoas, ele conseguiu interagir muito bem com os que ali estavam. E quem eram esses? Homens barbados, por vezes, de cabelos grandes, mulheres com tatuagens e cachos, crianças atentamente na "cacunda" dos pais prestando atenção em tudo. Moradores de ruas, bebos, também fazendo a festa. Pessoas que passavam e ficavam curiosas paravam pra assistir. Uma vez, algum dos meninos do Luxo da Aldeia comentou no facebook sobre essa mistura. E de como gosta dessa mistura. Acho que é exatamente disso que eu mais gosto nos eventos ocorridos na rua. A possibilidade de "misturar". Tudo junto e misturado.


Acaba o show e um pequeno intervalo para a próxima banda, Trombone de Frutas. Vamos a procura de cerveja enquanto esperamos. Aqui, um ponto a destacar: não existiam vendedores ambulantes. Isso, isso. Os moços com isopor vendendo cerveja. "Óia a cerveja, três real". Como assim? Evento de rua e não existe vendedores ambulantes? Poisé, o que acontece é que nunca vi deles por aqui. Talvez exista uma lei municipal para isso. Não sei. Mas que é diferente, é.  

Trombone de frutas, e um monte de fruta no palco. Melancia, uva, banana. Roupas coloridas. Engraçado que, dias antes, tinha visto um clipe da banda. No mesmo dia, fui pra um bar, e tinha uma pessoa com uma camisa típica do "Trombone de Frutas". Falo: "Eaí, Trombone de Frutas." O cara se acaba de rir e diz que conhece a banda, e que a camisa dele fazia mesmo o estilo do grupo musical. Voltando a apresentação, ela foi, no mínimo, muito divertida. Inglês, espanhol e português. Tudo misturado! (olha a mistura de novo!). E a interação com o público, excelente. (sim, eu amo a interação artista - público).



Segundo tempo. Vejo, por um "amigo", que vai rolar uma festa "junina" no Largo, na praça, na rua. Após o show, nos encaminhamos para lá. O lugar tava toooodo decorado. Bandeirinhas de São João, bois para vestir, mesa de comidas. A coisa mais linda e cuidadosa! E música, música de "Festa Agostiana". Forró. Triângulo e Zabumba. Eu não tinha ideia, até aquele momento, como eu estava com saudade disso (apesar de já ter ido pra um forró aqui, aquele momento de São João, era totalmente diferente). Não foram poucas vezes que os meus olhos ficaram cheios de lágrimas, encantada de estar naquele lugar. Tratei de amarrar meu cabelo com duas "chuquinhas" e caí na dança. Na quadrilha. Na alegria.




E, diante de tudo, eu só consigo pensar: Vem pra rua!

Escrito por:  Amália Beatriz. Cearense de genética e coração, psicóloga de profissão e paixão. Possuo a espontaneidade e alegria como regentes da vida. Vontade constante de aprender, descobrir, encantar e desencantar. Moradora de Curitiba desde fevereiro de 2013. 



sexta-feira, 23 de agosto de 2013

o miolo da estória

Conheci as músicas de boi antes mesmo de saber o que era a brincadeira do bumba boi. Soube das lendas da ilha, antes mesmo de pisar em São Luís. Me encantei quando vi pela primeira vez um maracá com suas fitas coloridas, tocando os versos de “folia de príncipe” e “pedra de responsa” no teatro José de Alencar. Acho que eu tinha uns 11 anos quando fui pela primeira vez a um show do Chico César. Depois conheci o maranhense José de Ribamar, vulgo Zeca Baleiro, que canta as lendas e brincadeiras do maranhão, algumas vezes disfarçadas de rock ou de brega, como a “Serpente” e “Semba”, mas que não passam de toadas de boi, tambor ou mina.

Eu só percebi tudo isso depois que “fui pra ilha maravilha”. Descobri que tudo que era cantado nas “minhas músicas” era de verdade. As lendas e brincadeiras (que são muitas) fazem parte daquela cidade velha e daquele povo. Eles amam aquilo. Mesmo não tendo nada. Apenas com a fé nos santos e nos orixás. Fé. Eles tem muita. E talvez precise. Porque o descaso é grande demais. Sempre penso que poderia ser uma Amsterdam, mas é São Luís.

E foi com esse meu encanto pelas brincadeiras que quis ver aquele espetáculo: “o miolo da estória”. O resumo na programação do Festival Palco Giratório dizia que “a estória apresenta a vida e os sonhos de João Miolo, operário da construção civil e brincante de bumba meu boi”. Isso foi o suficiente pra me fazer sair de casa.

Ao entrar no teatro, fomos recebidos ao som de um boi. Era boi da Maioba. O coração já bateu mais forte. Sentei no meu lugarzinho de sempre. No patamar mais alto da arquibancada para poder olhar tudo. Observei o cenário. Vários marcacás no chão. Uma escada de madeira. Um carrinho de mão. Estruturas de madeira. Uma pá. Algumas latas de tinta. Tudo isso no chão, em cima de uma lona circular. E lá no fundo, pendurado, como quem não tem a intenção de aparecer, o pandeirão.

Black out e começa. Vestido como pedreiro, de capacete e colete, ele inicia com versos de literatura de cordel. Esse primeiro personagem era um tipo de narrador da história. A cada black out e a cada “troca de figurino”, o narrador sai e entra João Miolo. Que contava sua história e dialogava com os personagens como quem conversa com a plateia. Um brincante de bumba boi que trabalha na construção civil. Pobre. Como grande parte do povo maranhense. Estado rico de gente pobre. Mas a pobreza não é o foco. Na verdade ela é retratada de uma forma engraçada. O foco é o amor pelo boi. A fé na brincadeira. E a paixão pelos santos. São Pedro e São João.

A história se desenrola. De dia pedreiro e a noite servente do boi. Sua real profissão. Quantas histórias existem nos terreiros. Quantas histórias existem na construção.  Quantas histórias são as mesmas, mas só olhamos para aquelas que achamos virtuosas. Pensei na fala do pequeno príncipe, quando ele observa a forma na qual apresentamos as pessoas: pelo que elas fazem, e não pelo que elas são. Lembrei de quantos Miolos já conheci. Dos capoeiristas-porteiros. Do dj-historiador. Do surfista-arquiteto e dos músicos-arquitetos (que não é difícil). Do mestre de tambor-agricultor. Do baterista-mestre de obras. E de tantos outros que não conheci.

E em meio a diálogos, narrativas em cordel, músicas e texto, o mote da história surge. João quer sair de baixo do boi para pegar o maracá e cantar suas toadas. Miolo quer colocar seu pensamento em forma versos, e não em forma de passos. Mas seu mestre não deixa. Diz que sua vocação está nos pés. Que aquele boi não seria nada se não tivesse o João, para manipulá-lo com a mesma leveza que fazia ali. Naquele momento. Com o pesado carrinho de mão.

Arrasado com tudo aquilo ele se desespera. Resolve sair da brincadeira. E como consequência do destino ou castigo do santo, acaba com um sério problema de saúde. É aí que a fé maranhense aparece. Fé nos santos e nos orixás. Com a mesma intensidade e respeito. Promessa para o boi. E ele volta a dançar. A brincadeira deles é isso mesmo. É misturada com fé e religião. É uma brincadeira que não tem nada de brincadeira.

Tudo isso é apresentado no palco. O texto não é autobiográfico. Mas o espetáculo é a biografia daquele povo. Sofrido. Que encontra a fuga nas brincadeiras. Ele conseguiu retratar a beleza e a pobreza da ilha em apenas uma hora. A cada passo pesado da construção eu lembrava do tombamento dos casarões. A cada movimento leve dos pés, eu lembrava do colorido brilhoso das roupas. Da alegria. Da dança. E do apito. A cada diálogo eu lembrava da fé maranhense.

O sotaque não podia se esconder. Quantos “nhs” puxados e quantos diminutivos. Quantos “pequenos” e “ças criança”. Quantos detalhes. E todos estavam lá. Nas músicas. Nas danças. Nos movimentos. Nas personagens. Nos diálogos. Na leveza. Na luz. E no cenário. Ah! o cenário. Esse também encantou. O carrinho de mão que fazia função de boi e de altar para São Pedro. A pá era “guidon” e as peneiras eram as rodas da bicicleta. A lanterna que era vela. O “pôster” de São Pedro que era uma placa de estacionamento. As latas de tinta que eram cama. O capacete que era chapéu de vaqueiro. As estruturas de madeira que eram lixo e tijolos. O capacete de solda que era máscara de cazumbá. Todos os elementos cumpriram sua função.

Promessa realizada. João fica bom. E paga sua obrigação: dançando o boi no auto da escada de madeira que, iluminada, se transformou na escadaria da Capela de São Pedro. Com o pandeirão lá no alto, lindo, todo iluminado, brincando de lua cheia.

Lauande Aires. Esse é o nome do maranhense. Texto, direção, atuação, figurino e cenografia. Santa Ignorância Companhia de Artes. Eles disseram que não tinham nada para fazer a peça. Apenas a vontade. O desejo. Queria retratar essa realidade. 10 meses de preparação. E finalmente conseguiu fazer parte do Festival Palco Giratório, que teve 15 edições anteriores, e aquela era a segunda vez que uma companhia de teatro maranhense se apresentava. 

terça-feira, 20 de agosto de 2013

nova coleção

Moro no centro de Curitiba. Quase no bairro Rebouças. Mas na correspondência diz "Centro". Perto daqui tem muitos shoppings. Acho que uns cinco. Já fui a todos. Apesar de detestar shoppings. Na verdade, logo que cheguei por aqui, era o meu lugar favorito. Por ser igual aos meus. Por ser quente. Por ser o “não lugar” que acaba sendo o lugar de todo mundo. O lugar que podemos nos sentir menos só (apenas pela quantidade de pessoas ao nosso redor).

O mais próximo da minha casa é o Shopping Estação. Um shopping mais popular. Fazendo a comparação cearense, seria o “North Shopping”, sem seus labirintos. Ou o “Center Um”, com uma dimensão bem maior. Esse shopping foi construído na antiga estação ferroviária da cidade. Hoje, além de shopping, o espaço abriga o museu ferroviário. Logico. Museu este pequenino perante a dimensão do shopping, que conta um pouco da história da cidade e daquela antiga estação. Suponho que seja esse o conteúdo da exposição, pois ainda não visitei.

Por ser apenas a dois quarteirões da minha humilde residência, significa que vou sempre por ali. Para ir ao supermercado, passo em frente. Para ir ao banco. Pra comer alguma coisa diferente. Para ir ao Cinema ou à faculdade. Isso. Sempre passo por dentro desse shopping para ir à faculdade. Construíram o shopping em 2 ou 3 longos quarteirões. Acho que com a intenção de parecermos está dentro e fora dele. Uma parte da praça de alimentação é realmente semelhante a uma rua/praça. Restaurantes e uma “longa calçada” com muitos bancos. Tudo coberto com material translucido que deixa adentrar a raríssima luz do sol. Sempre tem meia dúzia de casais apaixonados. Grupos de amigos conversando. Mães com seus filhotes nos carrinhos. 

Em todas essas minhas idas ao tal shopping estação passo pela Renner. Não pra comprar. Mas apenas olhar. Olho a vitrine. Vejo todos aqueles casacos lindos. Quase sempre entro. Só para olhar as araras. Conferir os preços. Mas acho tudo muito caro. Passou de 50 reais, devolvo a peça pro seu devido lugar. Principalmente agora, que não tenho mais meu salário querido pra me fazer companhia. As vezes olho toda a sessão feminina. Fico me imaginando comprando aquelas roupas de frio. Me imaginando no novo visual mesmo sem saber me vestir para frio. Sempre tenho o mesmo pensamento: preciso de roupas para aguentar o frio, mas sem ficar ridícula.

Metade de agosto. E de fato esperando setembro chegar. Mês mais frio do pavoroso inverno curitibano. Céu cinza. Vento frio lá fora. Nem sinal do meu querido sol. Passei a usar o aquecedor quase o dia inteiro. Inclusive pra dormir. Para sair de casa, uso minhas roupas de anos atrás. Muitas blusas de manga que não esquentam e casacos emprestados.

Um final de semana sem aula. A saudade aumentando cada vez mais. Enquanto o sentido da mudança diminui proporcionalmente. Sexta feira. Uma tristeza sem fim. Pra espantar tudo isso, resolvi ir ao shopping. Ir no salão. Almoçar. E, finalmente, comprar meu "look" de inverno. Me "arrumei" e fui. Primeira parada: Renner. Olhei para a vitrine. Procurei pelos casacos. Pelos moletons. Calças. Botas. Nada! Primavera-verão. A nova coleção acabara de chegar. 

A quem interessar possa (organizado "a la" trabalhos de arquitetura):

O SHOPPING ESTAÇÃO
O Shopping Estação foi inaugurado em 1997. Localizado anexo à antiga estação ferroviária de Curitiba, no bairro Rebouças, o Shopping Estação teve sua arquitetura projetada para manter a concepção original da antiga construção, integrando o antigo e o novo com perfeição, valorizando a iluminação natural e os jardins internos.

O MUSEU
O Museu Ferroviário de Curitiba abriga mobiliários e peças que colaboram para o resgate histórico da memória ferroviária no Paraná, que se iniciou em 1885 com a inauguração do trecho entre Paranaguá e Curitiba. Inaugurado em 1982, o espaço possui a arquitetura da antiga Estação Ferroviária de Curitiba.

Horário de funcionamento do Museu: 
Terça a sábado: 10h às 18h
Domingo: 11h às 19h
Segunda: não abre

PS.: Texto retirado do site do shopping estação, que provavelmente deve ter sido feito por um arquiteto, diante das mesmas justificativas urbanísticas e arquitetônicas para qualquer novo empreendimento que envolva: antigo x novo, patrimônio, urbanístico, empreendimento comercial.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

6 meses. Meio Ano.

6 meses... Tem uma semana que isso tá martelando na minha cabeça:

6 meses em Curitiba.

6 meses sem encontrar a família, 6 meses sem encontrar a maioria dos amigos, 6 meses sem roda de violão, 6 meses sem ir pro Vila Camaleão, 6 meses sem happy hour (na Europa ou na Africa), 6 meses sem soar pra caramba, 6 meses sem dirigir, 6 meses sem escutar buzinas de carros enlouquecidos no trânsito (é incrível, os carros aqui dificilmente buzinam), 6 meses sem Praia do Futuro, caranguejo e 'Açaí da Jú', 6 meses sem sushi no America Beer ou Pão de Açucar, o lugar de gente feliz, 6 meses sem os latidos do Dico (meu cachorro. Que saudade!).
6 meses sem. Sem um monte de coisa.


6 meses que eu aprendi um monte de coisa.

Aprendi a respeitar as diferenças (ainda mais).

Que carro é um supérfluo que eu julgava tão necessário. Com isso, aprendi o prazer de andar a pé. Eu amo a possibilidade de ir a pé pros lugares. Seja o supermercado, o Mercado Municipal, a XV ou Largo da Ordem. A referência 4km teve grande mudança. Antes, era um absurdo. Hoje, é "mó limpeza". Com a ajuda do magnifico google maps orientando as direções, tudo fica melhor!


Estou, constantemente, aprendendo a cozinhar. Saí de Fortaleza sem saber fazer nem arroz. Hoje faço arroz, feijão, macarrão, carne, frango... E ainda tenho a sorte de, por vezes, ficar bom que só. Aprendi essas coisas domésticas: passar aspirador, pano, lavar roupa.(pode parecer uma besteira, mas pra mim é muito significativo.) E tenho um grande de prazer de ver tudo arrumado. Na última semana, aprendi a abrir lata de milho, com ajuda do Jardel (que mora comigo). Por sinal, ô trem díficil! Tem que encaixar direito o abridor, fazer determinado movimento.  Uma das aprendizagens mais difíceis, sem dúvidas.

Aprendi que, já que não tenho praia, eu vou ao parque. Dessa forma, fiz do Jardim Botânico minha praia. É lá que pratico tênis, faço malabares, leio, e, atualmente, tento aprender a andar de skate.


Aprendi, na pele, que você ser legal com outros, só faz atrair coisas boas de volta. É quase que um pensamento egoísta, mas é verdade: se eu sou legal com ele, ele vai ser legal comigo e vai ser muito melhor. Tem dado super certo.


Aprendi que você tem que se despir de muitas coisas pra poder fazer de uma cidade, sua nova morada. Despir mesmo. Até pras mais "sem-vergonhas", como eu, não é um processo nada fácil. Tem que ser ainda mais cara de pau (no melhor sentido da palavra).



Aprendi a valorizar a leitura. Seja ela em qualquer lugar. Em casa, no ponto de ônibus, no ônibus ou intervalo das aulas. Quando penso nisso, lembro dos meus primeiros dias de aula da psicologia que conversando com o grupo de amigas, comentei que odiava ler. Hoje dia, não vivo sem.



Aprendi e estou aprendendo constantemente no mestrado, razão única que me fez "trocar" a linda Fortaleza, pela encantadora Curitiba. Além do contato com os maiores doutores na área de Psicologia Forense, descubro coisas novas em cada aula, em cada papo, em cada leitura. Ô Ciência pra eu amar. 


Tenho aprendido a me vestir no frio. Outro dia, passei mil anos escolhendo a roupa pra ir em um samba. Colocava roupa demais? Roupa de menos? Roupa de menos e uma roupa de mais em cima?

E, aprendi, principalmente, a valorizar as pequenas coisas da vida. Essa afirmação pode ser bem batida, quase algo que você poderia se encontrar em um livro de autoajuda (eu odeio autoajuda), mas que tem feito todo sentido pra mim. Eu não preciso de muita pra coisa ser feliz não. Um dia de sol em Curitiba, por exemplo, já garante uma extrema alegria. Como diria o Cristovão Tezza, é dificil ter um dia sol, sem nuvens, mas, quando tem, é a coisa mais linda. Dessa forma, vou sendo feliz a cada nova pessoa legal que conheço, a cada novo encantamento, ao ir em lugares que nunca fui (aquela velha e boa sensação de que sempre estou viajando), a cada novo autor, a cada nova peça de teatro, a cervejas brindadas. 



6 meses em Curitiba. 
E a certeza de que estou, exatamente, onde eu queria estar.

Escrito por: Amália Beatriz. Cearense de genética e coração, psicóloga de profissão e paixão. Possuo a espontaneidade e alegria como regentes da vida. Vontade constante de aprender, descobrir, encantar e desencantar. Moradora de Curitiba desde fevereiro de 2013