segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

"Uma partida de futebol"

Domingo, mas também poderia se chamar "Futebol". Ou "Ressaca". Afinal, as duas coisas ocorrem constantemente "em um dia de domingo". Últimas rodadas do campeonato brasileiro. Os dois times do Paraná que estão na Série A vivem situações bem diferentes. O Atlético Paranaense (que tem sua  Fanática torcida conhecida pelos os Coxas-Brancas - como são conhecidos os torcedores do Coritiba, apelido recebido na década de 30, na qual os jogadores eram principalmente descendentes de alemães e tinham as coxas brancas -  como "Porcos" ou "Poodles") está na disputa de uma vaga para jogar a libertadores, após ter recentemente perdido o título da Copa do Brasil para o Flamengo. O Coritiba, do outro lado da tabela, encontra-se na zona de rebaixamento, tendo obrigatoriedade de vencer os dois últimos jogos para permanecer na elite do futebol brasileiro. No mesmo domingo, sai uma matéria de destaque no Gazeta do Povo (jornal impresso/online local) na qual o técnico do Coritiba  pede apoio aos torcedores para que se façam presentes no último jogo do ano no Estádio Couto Pereira (local onde o time alviverde costuma jogar na terra das araucárias) para que seja passada toda energia positiva para os jogadores em campo. Dessa forma, o time alviverde, fundado em 1909, carinhosamente chamado de "Coxa", chega com grande responsabilidade para o jogo contra o Botafogo. Botafogo que também precisava vencer para assegurar uma vaga no campeonato mais importante da América. Assim,  mais de 19.000 torcedores coxas-brancas preencheram o Estádio das cores verde e branca, acreditando e apoiando o Coritiba.

Mas, o que tem uma cearense a ver com tudo isso? 

Futebol é uma paixão nacional. Mundial. Uma paixão que, confesso, me fascina, assim como todas as formas de paixão. Paixão, que não entrou na teoria do Sr. Freud, que limita o tempo da mesma de, em média, três meses. Paixão que faz um dos maiores compositores (geniais compositores, diga-se de passagem) do Brasil, declará-la aos quatro ventos: Seu Chico Buarque. Paixão que move torcedores e mais torcedores aos estádios, levando essa paixão em forma de vestimenta, bandeira, casacos, gritos, apreensões, alegrias, palavrões e músicas. Em forma de bateria, tão forte quanto o coração fica nos momentos mais nervosos ao longo do jogo. E irracional. Afinal, paixão e irracionalidade andam ali, de mãos dadas.

Com tudo isso, acredito que se apropriar de uma cidade, é também se apropriar dessa paixão tão enlouquecida: o futebol. E com isso, acho que tenho tudo a ver.

Domingo. Coritiba X Botafogo. Saio de casa. Camisa verde, meia verde. Se é pra conhecer, se é pra torcer, se é pra fazer parte, tem que fazer direito. Com o pé direito. O biarticulado pra chegar no estádio perde até sua cor vermelha de tanto verde que tinha dentro. Curitiba, sem dúvidas, estava ainda mais verde. Ainda mais Coritiba. A chegada ao estádio, e os torcedores visivelmente entusiasmados e apreensivos. Essa foi a minha sensação durante todo o primeiro tempo do jogo. Antes de entrar, a concentração. A cerveja com carne pra aliviar a tensão, pra conversar sobre o jogo, pra fortalecer os laços advindos com a paixão futebolística. "Vai começar o jogo, vamos entrar". Esse negócio de um monte torcedor apreensivo e entusiasmado junto, vou contar, deixa até você, torcedora do campeão brasileiro de 2013, da mesma forma. No entanto, naquele instante eu estava com o mesmo objetivo da torcida alviverde, porém, sem a mesma paixão. Se os curitibanos são frios, como todos dizem, eles deixam a frieza em casa antes de ir ao estádio, tenho certeza.

Apita o arbitro e a torcida (diga-se de passagem, ô torcida bonita) canta empolgando o time em busca da vitória, em busca da vitória, pois foram ali para apoiar. No decorrer do jogo, tudo aquilo que falamos caracterizando a paixão pelo o esporte favorito da nação, acontece. Tudo. Talvez um pouco mais. O juiz, coitado, é sempre o ladrão. O filho da puta. A culpa não é do time que faz cagadas. É do juiz, lógico. Ah, a paixão! A culpa também é daquele técnico. Se fosse o torcedor que estava atrás de mim o técnico, tenho nem dúvidas. Teria sido goleada. Ele sabia tudo. Torcedor sempre sabe o que é melhor pro seu time. Gol. Duas vezes. Pro Coxa. Cooooxa, cooooxa! Eu tinha esquecido como esse momento no estádio me lembrava o momento da "paz de cristo" na missa. É o momento que todos se cumprimentam. E abraçam! Muito apertado! Como diria um certo coxa-branca, o momento do gol é o momento de extravasar a energia acumulada. O alivio em forma de alegria. O Botafogo faz um. Não importa. Não há tempo hábil para virada. Acredito também que os torcedores nem "perceberam" o momento do gol. A preocupação naquele exato instante, era xingar a polícia militar. "Vergonha do Brasil". Seja o veRgonha do Ceará ou o veRgonha do Paraná. Acho que isso todo mundo concorda. Apita o arbitro. Com uma araucária linda testemunhando tudo, o Coritiba ganha. Já sei. Foi tudo culpa da meia verde. 

Saída do estádio e a volta para a concentração. A última do ano. Carne e cerveja pra celebrar a vitória. 

A minha banda favorita da adolescência tava quase certa. Tão emocionante como uma partida de futebol, é uma torcida de futebol.



Escrito por:  Amália Beatriz. Cearense de genética e coração, psicóloga de profissão e paixão. Possuo a espontaneidade e alegria como regentes da vida. Vontade constante de aprender, descobrir, encantar e desencantar. Moradora de Curitiba desde fevereiro de 2013. Torcedora do Cruzeiro. Torcedora do Fortaleza.












terça-feira, 26 de novembro de 2013

pareça e desapareça

                                          ponte metálica. fortaleza. ceará.

Não sei se porque meu avô foi professor de geografia, mas eu lembro de ter um mapa do brasil, colado na parede do meu quarto, durante a vida escolar. Lembro que olhava muito pra ele. E, por algum motivo, acabei decorando todos os estados e capitais do país continental. Mesmo aqueles mais distantes e impossíveis. 

Claro que para todo “decoreba” existem regras. Regras feitas pela nossa cabeça. Que nunca querem dizer nada. Mas que conseguimos o objetivo: decorar.

Assim foi para distinguir Rondônia de Roraima. Roraima. Lá em cima. Só poderia ter uma Boa Vista. E Rondônia, coitada! Escondida lá embaixo. Tinha que ser estranha e ter um Porto Velho. Mato Grosso Cuiabá me pareciam sonoros. Assim como Tocantins Palmas. 

Para o nordeste acho que tinha uma musiquinha com o nome de todos os estados e capitais. Além de ser uma obrigação.

Descendo um pouquinho, tinha o famoso sudeste. O mais fácil de decorar. Dois estados com capital de mesmo nome. E um lugar de nome Espírito Santo, só podia ser uma Vitória. 

Florianópolis era fácil! Além de São Luis, era a outra capital ilha. E apesar de Curitiba ser a cidade invisível, eu sempre soube que o Paraná existia. Meu pai passou longos anos vindo pra cá.

Acabei falando isso tudo não pra reclamar que os curitibanos não sabem distinguir o norte do nordeste. Muito menos pra dizer a raiva que sinto por não saberem a existência da tal Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção.

Cheguei à historinha das tais capitais por está lendo um autor curitibano que eu não sabia da existência. E isso é um absurdo. Visto que ele é idolatrado pelas bandas de cá. Tudo é Leminski. Grafites. Rota turística. e outros bla bla blas.

Apenas por não saber quem era o tal Paulo, eu consigo perdoar a todos aqueles que eu conheci e que conhecerei que desconhecem meu lugar de origem.

E por falar em origem, eis que surge na minha frente. A 01:30 da manhã. Uma poesia que parecia falar de amor. Mas li de novo. Mais uma vez. Novamente. E ela se transformou. Pareceu, para mim, a relação que temos com nosso mundo, nossa cidade e nossas pessoas. E para ela uma foto que parece e desaparece comigo.

Parece que foi ontem.
Tudo parecia alguma coisa.
O dia parecia noite.
E o vinho parecia rosas.

Até parecia mentira,
Tudo parecia alguma coisa.

O tempo parecia pouco,
E a gente se parecia muito.
A dor, sobretudo, 
parecia prazer. 

Parecer era tudo
que as coisas sabiam fazer.

O próximo, eu mesmo.
Tão fácil ser semelhante,
quando eu tinha um espelho 
pra me servir de exemplo.

Mas vice-versa e vide a vida.
Nada se parece com nada.
A fita não coincide
com a tragédia encenada.

Parece que foi ontem.
O resto, as próprias coisas contem.


Paulo Leminski

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

"a memória queima. longe dela, brilha o deserto." cristóvão tezza

Era um lindo domingo de sol curitibano quando resolvi sair. Andar um pouco. Passear. Apenas por causa do rei sol. Que é tão cultuado e louvado pelas bandas de cá. Sua presença é tão esperada, pra não dizer necessária, que quando ele surge, mesmo que atrás das cinzentas nuvens, torna-se uma obrigação colocar os pés pra fora de casa. Ou melhor. O corpo inteiro.

Quando ele reina, a cidade muda. Os prédios ficam mais bonitos. O vento mais agradável. E as pessoas tornam-se mais simpáticas. E coloridas. As peças de roupa colorem a cidade. Blusa. Calça. Cachecol. Brincos. Tudo.

Havia ido à famosa feirinha do domingo. No tão animado Largo da Ordem. Não fui para comprar. Apesar de ter vontade de levar tudo. Mas apenas para o passeio. Em homenagem ao rei. E a mim.

Eu voltava serelepe e feliz depois de ver tantas cores. E sentir aquele ventinho “quente” maravilhoso. Só não melhor que a brisa cearense. E o vento do Aracati. Que percorre o Ceará trazendo alegria aos municípios jaguaribanos. Inclusive o Icó.

Com o pensamento na terra natal, e com um sorrisão no rosto, resolvi passar por dentro do mercado das flores. Não. O mercado das flores não é um mercado propriamente dito. É apenas uma grande estrutura com uma cobertura abobada onde vendem-se flores. Lindas. Coloridas. E caras. Diga-se de passagem.

Pois bem. Vinha eu e meus pensamentos quando um senhor me parou. Com um sorriso no rosto e um “boa tarde” animado, ele me ofereceu flores. E depois da minha negativa carregada de sotaque, ele puxou conversa. De onde eu era. Porque estava em Curitiba. Se estava gostando. E o que eu achava do frio. Da cidade. E das pessoas. Todas as básicas perguntas quando se trata de alguém “de fora”.

Fomos conversando. E de repente ele me veio com uma pergunta diferente. “O que é o pensamento pra você?”. Realmente me surpreendeu. Jamais eu havia pensado sobre isso. Silêncio. Depois respondi. E em seguida ele me presenteou com uma flor. “Cor de rosa”. Linda!

Mas ele não me deu a flor pela resposta, claro! Também não puxou conversa comigo porque me achou uma pessoa simpática. Nem fez a pergunta porque queria me impressionar. Longe disso. Provavelmente, todo esse “envolvimento” aconteceu porque ele é um vendedor. E seu objetivo é vender. Depois eu soube que ele sempre conversa com quem passa. E geralmente presenteia as pessoas com flores. Eu não havia sido a única.

Passado alguns dias, tive a oportunidade de comprar um livro de um escritor daqui. O afamado Cristóvão Tezza. E dentre todos que estavam na minha frente, elegi o “um erro emocional”. Não é o mais famoso dele. É apenas mais um. Mas talvez eu tenha comprado esse por causa do título. Li a orelha rapidamente. E levei.

Mero engano se eu o comprei porque achei que falava de alguma "relação amorosa" que terminaria com um final feliz, “à la” receitas das comédias românticas cinematográficas. O livro fala de uma relação sim. Mas apenas em pensamentos.

Logo na primeira página o autor revela o que seria o mote da história. E depois disso, apenas pensamentos. Dos dois personagens. Até o fim. Sei que é uma característica dele relatar os pensamentos dos personagens. Mas o que me impressionou foi a quantidade deles. Se tirássemos todos os pensamentos e deixássemos apenas os diálogos, acho que restariam apenas meia dúzia de folhas. Ou menos.

Lendo o livro lembrei da tal pergunta. E do que eu havia respondido. O que somos nós senão nossos pensamentos? Porque depois de irmos morar sozinho, em uma cidade cem por cento desconhecida, nos resumimos a eles. Podemos passar um dia inteiro sozinha. Ou vários. Sem falar sequer uma palavra. Mas o juízo está lá. Queimando. 

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Sr. Curitiba


Dois dias após a saída (na segunda-feira) o cara legal adiciona no facebook.

Sr. Curitiba: Oi, tudo bem?
Moça: Tudo e com você?
SC: Tudo bem também... Boa a festa ontem, né?
M: Pois é, achei divertida, pessoas legais...
SC: E você, o que veio fazer em Curitiba? Como é que você larga o calor do Ceará?
M: Rs. É que pra gente estudar tem que fazer esses esforços, né? Rs.
SC: Mas já tá adaptada a cidade? Costuma sair pra onde?
M: No começo é sempre mais difícil... mas com o tempo você vai fazendo o que gosta, achando os lugares que agradam.

(...)

SC: Nossa, você gosta desse tipo de música? Que massa! Eu também.
M: Massa mesmo, hein? É difícil encontrar pessoas que gostem disso. Mudando de assunto... Nossa, tô com frio!
SC: Ah, mas hoje nem tá tão frio assim.
(...)

SC: Moça, foi bom falar com você! Nos comunicaremos mais vezes.
M: Ô, Sr. Curitiba, também foi bom conhecer você melhor. Até mais!

No decorrer da semana, o papo continua intenso. Afinidades vão sendo descobertas. Pra comunicação ficar mais "próxima", eles se adicionam também no whastapp.

Chega a sexta-feira.

SC: Oi, moça! E aí, o que você vai fazer hoje?
M: Ah, acho que nada. Não tenho nada combinado. E você?
SC: Eu vou pra um barzim com uns amigos. Um lugar bem legal!
M: Olha, que bacana! Interessante, hein?
SC: É, esses meus amigos são legais. Vai ser divertido!
M: Ah, pois beleza. Se divirta!
SC: Obrigada, depois nos falamos! Beijo grande!

Reparem que a moça deu abertura para eles saírem. Na verdade, era o que ela estava querendo após uma semana de conversas sem parar. Porém, o rapaz nada de tomar atitude e chamá-la para nada. "Será que ele quer ser só amigo? Curitibanos são assim? Posso tomar atitude? Se fosse lá na minha terra... Idiota!".

Chega o sábado e novamente o assunto continua. Uma observação: ele mandou foto pra ela enquanto estava na festa no dia anterior, dizendo que ela iria amar aquele lugar.

SC: E o sabadão, moça? Qual vai ser a boa?
M: Ah, eu vou assistir um apresentação de uma banda de rock que dizem que é muito boa. Vamos?

(Siiiim, ela tomou atitude. Era necessário.)

SC: Ah, tenho que ver se meus amigos querem ir. Qualquer coisa, te aviso! Você vai com quem?
(....)

Nesse momento, a moça pensa: "Como assim chamar os amigos? Ele não entendeu que eu estou o chamando pra sair?"

Sábado à noite: Rock. A moça vai bem bonita achando que vai encontrar o rapaz.

Duas horas depois, o Sr. Curitiba chega.

SC: Olá, que lugar legal esse, né?
M: Pois é, eu também achei. A banda está ótima. Ah, deixa eu te apresentar meus amigos.

Duas horas depois de se encontrarem.

SC: Você tá bonita, hein?
M: Ah, obrigada! Você também! Vamos lá pra frente?

Nessa altura do campeonato nem paquera rolava. E ir pra frente do palco seria uma tentativa de ficar mais próximo, mas... Nada! Os mesmo pensamentos retornam: "Ele quer ser só meu amigo? Se fosse lá na minha terra.. Idiota!"

Eles se divertem a noite toda. Brincam, balançam a cabeça juntos, cantam as músicas, compram cerveja, conversam com os amigos. Até que o rapaz solta...

SC: Moça, eu queria muito ficar com você. Porém, não vou ficar hoje.

A moça, diante dessa situação, e com o já quase final da festa,  prefere ir embora com mil questionamentos na cabeça "Qual é a desse cara? Conversa que só diz que está interessado e não faz nada? Só podia ter outra paquera naquele lugar. Idiota!

Domingo. Novos papos via redes sociais. Os dois fingem que nada aconteceu no dia anterior.

SC: E aquela festa, foi boa, né? Você estava linda!
A moça pensa: "Qual é a desse cara? Não estou entendendo mesmo. Ele quer ser amigo? Amizade é bom. É ótimo. Mas é bom quando a gente sabe o que a pessoa está querendo!"

M: Ah, eu também gostei... foi ótimo!

Duas horas de papo.

SC: Moça, vou dormir. É sempre muito bom falar com você.
M: Ah, também! Abraços.

De novo, um novo papo, novas afinidades e nada. Nada. A menina continua sem entender. Curitibanos? Eles são assim? Nessa dúvida cruel, passa a pedir opiniões para outros senhores curitibanos: Moça, os curitibanos são assim mesmo. Lentos. Até os rápidos daqui, são lentos. Curitiba é a cidade do chá. Quando não é a menina que coloca ele no chá, é o outro que faz. Sempre tem alguém colocando um ou outro de molho. Moça, aqui em Curitiba é assim. Você tem que acostumar com esse jeito. O negócio é o seguinte: tem que ter mais de um paquera. Quando um deixa você de molho, você vai para o outro. É sempre bom ter outro plano.

Mais uma semana se passa. A mesma história. Conversas e mais conversas. A mesma história. Também a lentidão, a dúvida se é uma paquera ou amizade, o não chamar para sair.

 E mais uma semana passa. E mais uma semana.

Chega o final de semana. Nada do rapaz chamar a moça para sair. Coincidentemente, os dois se encontram no mesmo lugar. Papo pra cá, papo pra lá. Nada da linguagem corporal. Nada do rapaz nem tocar na moça. As horas vão passando, a companhia vai ficando cada vez mais agradável. Bebida vai, bebida vem, e, finalmente, no final da festa, após semanas de conversas, os dois se beijam. Beijam, abraçam, abraçam, beijam. "Valeu esperar" a moça pensa.

 Na hora de ir embora, a moça, que nessa altura do campeonato já achava que as coisas poderiam andar mais naturalmente (e não lentamente), diz para o Sr. Curitiba:

M: Você vai embora agora? Posso ficar mais um tempo aqui com você.
SC: Não, não. Pode ir com suas amigas.

E assim iniciou mais uma semana. E os papos, e os bons papos, e a afinidade, e o também não chamar para se encontrar. 

Obs: Gostaríamos de deixar claro que essa é uma história fictícia. Que o rapaz e a moça são baseados na nossa (as escritoras do blog) imaginação, histórias de bar, conversas costumeiras e observações realizadas.  







quinta-feira, 26 de setembro de 2013

há sonhos que são de verdade

Era noite e eles bem pequeninhos, uma graça de crianças. Estavam dois em cima de um caminhão de lixo enquanto um ficava na calçada jogando os sacos de lixo para os dois lá de cima. Não tinham semblantes de tristeza, mas também não tinham feições de crianças felizes apenas estavam fazendo o que provavelmente fazem todos os dias quando as lojas do centro fecham e deixam papelões, sacos e papeis na calçada. 

Um pouco mais distante estava uma senhora já idosa, por volta de seus 80 anos. Pele enrugada dos dias vividos, casaco cinza, postura encurvada, cabelos brancos e um cansaço enorme! 

Na rua em que acontecia essa cena, passava uma moça junto com alguns amigos. Ela olhou para os amigos e disse: "Ver essas coisas me partem o coração. Isso é negligencia, cara! Da mãe, do Estado e nossa!". Ela não aguentou ver aquela cena triste, chegou para senhora de cabelos brancos e disse: "Mãezinha, não deixa eles catarem mais lixo não, o que a gente pode fazer pra melhora isso hein?!

A senhora olhou pra ela com aquele olhar cansado, baixou a cabeça, voltou a pegar os papelões e nada disse.... a moça saiu...e aquela rua não era mais molhada pelas chuvas de Curitiba, mas pelas lágrimas da moça que se sentiu muito inútil frente aquela cena toda.

.escrito por Larissa Siqueira que sonhou com esse texto. 

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Até no Alasca.

Novo dia frio em Curitiba, assim como acontece na maior parte do ano (ou, pelo menos, do que presenciei). Sair de casa é sempre um tormento necessário. 

Adentro o Inter II (acho que já falei dele algumas vezes, mas pra recordar, ele é como se fosse o Grande Circular de Fortaleza, roda a cidade "toda"). Dou sorte de conseguir ir sentada, o que de fato, é uma sorte. O ônibus demora a sair, e, como é de costume, escolho as pessoas que vou ficar reparando (é, reparando, escutando a conversa, enfim. Aí vai uma dica: é uma ótima forma da "viagem" no busão se tornar mais divertida. É cada gente, cada história).

Olho pras pessoas que estão na porta do ônibus e vejo um rapaz de mais ou menos 27 anos, baixinho, fortinho, moreno, "cabeça chata" tentando puxar assunto com outros rapazes que tinham o mesmo estereótipo: altos, magros, brancos, olhos claros, cabelo claro, engravatados. 

Cabeça-chata: "ei, mah, como é que tu tá aguentando esse frio todo? tá muito friiiio!"
Engravatados: nada de falarem nada. Dão um sorriso amarelo. 
O cabeça-chata não se importando nada com essa demonstração, continua: Mah, é sério, tá mto frio. Eu sou lá do cIará, se fosse lá, tava um calor danado e vocês precisariam usar protetor solar. 
Engravatados: o sorriso amarelo continua. 

Eu, que lá estava observando a conversa toda, começo a rir, sozinha, morta de feliz, pensando "esse nosso ceará é muito simpático mesmo, até no frio".

De repente, não mais que de repente, o cabeça-chata cearense se anuncia pro ônibus todo (mais especificamente pro "pavimento" que eu estava). 

Cabeça-chata (com o sotaque mais lindo!): Oi, pessoal! Meu nome é "Cabeça-chata", sou lá do Ceará, e lá não tem esse frio não ("no Ceará não tem disso não, não tem disso não, já dizia Luiz Gonzaga"). Vocês não tão morrendo de frio não? (todo mundo permanece calado, inclusive eu, que só consigo abrir um largo sorriso). Eu vim lá da minha terra porque faço parte do Manassés (pqp, manassés não. que horror!) e estou aqui pra divulgar a casa e oferecer esses produtos pra vocês, apesar de ter essas placas no ônibus dizendo que é proibido vender e pedir esmola (achei genial essa parte, pq no Ceará a gente pode fazer "o que quiser nos ônibus"). 

E assim as explicações sobre a Manassés, uso de drogas e a importância da compra daquele kit ocorreu. Ali na frente, eu via, claramente, uma pessoa super calorosa, apesar do frio que estava reclamando, e engraçada (ô povo cearense engraçado! armaria!), capaz de tirar brincadeira com todo mundo, sem ofender. As pessoas, que a princípio, estavam bem fechadas, com decorrer da venda, já se comunicavam entre si com o olhar sorrindo.

Quando acabou o comércio, permaneci sem falar nada com ele. Pensava comigo "pq sempre eu tenho que falar.. não consegue ficar quieta não, Amália?". 

O cabeça-chata, até chegar sua parada (tubo), foi tentando puxar assunto com os engravatados. Que, inclusive, nada obteve sucesso. 

Coincidentemente, descemos na mesma parada. E, como eu não consigo ficar quieta, passei por ele já esticando a mão:

Amália: Oi, eu também sou Cearense!
Cabeça-chata: Sério?? Por isso que você ria tanto. Tô dizendo que o cearense é uma praga mesmo... Tem até no Alasca. Tu não tá morrendo de frio não?

E, assim, pela primeira vez na vida, fiquei contente de encontrar um Manassés no ônibus. 

Obs: quem quiser saber o que é Manassés (apesar de eu achar melhor vocês ficarem na ignorância: http://www.instituicaomanasses.com.br/

Escrito por:  Amália Beatriz. Cearense de genética e coração, psicóloga de profissão e paixão. Possuo a espontaneidade e alegria como regentes da vida. Vontade constante de aprender, descobrir, encantar e desencantar. Moradora de Curitiba desde fevereiro de 2013 

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

amália


Muitas pessoas já me falaram do meu sorriso. Sorrisão. Que podia fazer propaganda da “colgate”. Pois bem. Conheci uma pessoa que tem um SORRISÃO. Maior que o meu. E radiante. Radiante por existir. Por aproveitar a vida do jeito que ela é. De ver tudo com os olhos da alegria. Nos conhecemos a pouco. Mas já se faz necessária na minha vida. Ela é uma pessoa colorida que tornou meus dias cinzentos e frios mais felizes. Ela que tem uma garra de viver. E um brilho no olhar. Ela mesma. Essa menina que hoje faz 26 aninhos. Te desejo muitos motivos para você continuar com essa felicidade. Parabéns!


“Tirei meu chapéu de palha, e meu paletó de linho. Convidei maria Amália, pra sambar no chuvisquinho”