segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

"Uma partida de futebol"

Domingo, mas também poderia se chamar "Futebol". Ou "Ressaca". Afinal, as duas coisas ocorrem constantemente "em um dia de domingo". Últimas rodadas do campeonato brasileiro. Os dois times do Paraná que estão na Série A vivem situações bem diferentes. O Atlético Paranaense (que tem sua  Fanática torcida conhecida pelos os Coxas-Brancas - como são conhecidos os torcedores do Coritiba, apelido recebido na década de 30, na qual os jogadores eram principalmente descendentes de alemães e tinham as coxas brancas -  como "Porcos" ou "Poodles") está na disputa de uma vaga para jogar a libertadores, após ter recentemente perdido o título da Copa do Brasil para o Flamengo. O Coritiba, do outro lado da tabela, encontra-se na zona de rebaixamento, tendo obrigatoriedade de vencer os dois últimos jogos para permanecer na elite do futebol brasileiro. No mesmo domingo, sai uma matéria de destaque no Gazeta do Povo (jornal impresso/online local) na qual o técnico do Coritiba  pede apoio aos torcedores para que se façam presentes no último jogo do ano no Estádio Couto Pereira (local onde o time alviverde costuma jogar na terra das araucárias) para que seja passada toda energia positiva para os jogadores em campo. Dessa forma, o time alviverde, fundado em 1909, carinhosamente chamado de "Coxa", chega com grande responsabilidade para o jogo contra o Botafogo. Botafogo que também precisava vencer para assegurar uma vaga no campeonato mais importante da América. Assim,  mais de 19.000 torcedores coxas-brancas preencheram o Estádio das cores verde e branca, acreditando e apoiando o Coritiba.

Mas, o que tem uma cearense a ver com tudo isso? 

Futebol é uma paixão nacional. Mundial. Uma paixão que, confesso, me fascina, assim como todas as formas de paixão. Paixão, que não entrou na teoria do Sr. Freud, que limita o tempo da mesma de, em média, três meses. Paixão que faz um dos maiores compositores (geniais compositores, diga-se de passagem) do Brasil, declará-la aos quatro ventos: Seu Chico Buarque. Paixão que move torcedores e mais torcedores aos estádios, levando essa paixão em forma de vestimenta, bandeira, casacos, gritos, apreensões, alegrias, palavrões e músicas. Em forma de bateria, tão forte quanto o coração fica nos momentos mais nervosos ao longo do jogo. E irracional. Afinal, paixão e irracionalidade andam ali, de mãos dadas.

Com tudo isso, acredito que se apropriar de uma cidade, é também se apropriar dessa paixão tão enlouquecida: o futebol. E com isso, acho que tenho tudo a ver.

Domingo. Coritiba X Botafogo. Saio de casa. Camisa verde, meia verde. Se é pra conhecer, se é pra torcer, se é pra fazer parte, tem que fazer direito. Com o pé direito. O biarticulado pra chegar no estádio perde até sua cor vermelha de tanto verde que tinha dentro. Curitiba, sem dúvidas, estava ainda mais verde. Ainda mais Coritiba. A chegada ao estádio, e os torcedores visivelmente entusiasmados e apreensivos. Essa foi a minha sensação durante todo o primeiro tempo do jogo. Antes de entrar, a concentração. A cerveja com carne pra aliviar a tensão, pra conversar sobre o jogo, pra fortalecer os laços advindos com a paixão futebolística. "Vai começar o jogo, vamos entrar". Esse negócio de um monte torcedor apreensivo e entusiasmado junto, vou contar, deixa até você, torcedora do campeão brasileiro de 2013, da mesma forma. No entanto, naquele instante eu estava com o mesmo objetivo da torcida alviverde, porém, sem a mesma paixão. Se os curitibanos são frios, como todos dizem, eles deixam a frieza em casa antes de ir ao estádio, tenho certeza.

Apita o arbitro e a torcida (diga-se de passagem, ô torcida bonita) canta empolgando o time em busca da vitória, em busca da vitória, pois foram ali para apoiar. No decorrer do jogo, tudo aquilo que falamos caracterizando a paixão pelo o esporte favorito da nação, acontece. Tudo. Talvez um pouco mais. O juiz, coitado, é sempre o ladrão. O filho da puta. A culpa não é do time que faz cagadas. É do juiz, lógico. Ah, a paixão! A culpa também é daquele técnico. Se fosse o torcedor que estava atrás de mim o técnico, tenho nem dúvidas. Teria sido goleada. Ele sabia tudo. Torcedor sempre sabe o que é melhor pro seu time. Gol. Duas vezes. Pro Coxa. Cooooxa, cooooxa! Eu tinha esquecido como esse momento no estádio me lembrava o momento da "paz de cristo" na missa. É o momento que todos se cumprimentam. E abraçam! Muito apertado! Como diria um certo coxa-branca, o momento do gol é o momento de extravasar a energia acumulada. O alivio em forma de alegria. O Botafogo faz um. Não importa. Não há tempo hábil para virada. Acredito também que os torcedores nem "perceberam" o momento do gol. A preocupação naquele exato instante, era xingar a polícia militar. "Vergonha do Brasil". Seja o veRgonha do Ceará ou o veRgonha do Paraná. Acho que isso todo mundo concorda. Apita o arbitro. Com uma araucária linda testemunhando tudo, o Coritiba ganha. Já sei. Foi tudo culpa da meia verde. 

Saída do estádio e a volta para a concentração. A última do ano. Carne e cerveja pra celebrar a vitória. 

A minha banda favorita da adolescência tava quase certa. Tão emocionante como uma partida de futebol, é uma torcida de futebol.



Escrito por:  Amália Beatriz. Cearense de genética e coração, psicóloga de profissão e paixão. Possuo a espontaneidade e alegria como regentes da vida. Vontade constante de aprender, descobrir, encantar e desencantar. Moradora de Curitiba desde fevereiro de 2013. Torcedora do Cruzeiro. Torcedora do Fortaleza.












Um comentário:

  1. além de ser uma ótima companheira de jogo, a amália também soube captar as nuances e sutilezas do futebol paranaense, em especial do meu querido coritiba. muito bom, parabéns ;)

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